sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Kierkegaard: viver e filosofar

“Johannes faz o que lhe disseram que se devia fazer, ele duvida efetivamente de tudo, passa por todos os tormentos que esta dúvida comporta, torna-se dissimulado, quase desenvolve uma má consciência; agora, no limite extremo, ele quer voltar atrás, mas não pode; compreende que, para duvidar de tudo com sucesso, esgotou todas as forças de seu espírito, e que, se renuncia a esta dúvida intensiva, pode muito bem chegar a algo, mas neste caso terá renunciado à sua dúvida sobre a totalidade. Então se desespera, desperdiçou sua vida, sua juventude esgotou-se com suas reflexões, a vida não ganhou nenhum sentido para ele, e tudo isso é culpa da filosofia.” (p. 123). O trecho real está em Papéis IV B 16.

Comentários. Renunciar à dúvida parece ser renunciar à filosofia (“terá renunciado à sua dúvida sobre a totalidade”) e, por já ter investido muito de si na filosofia, renunciar à filosofia significaria ter um pesar sobre quem já foi; disto, decorre o seu desespero de ter desperdiçado a sua vida, porque a filosofia da dúvida não contribuiu para a “atribuição” (dação, talvez) de sentido à sua vida. Eis uma importante nota, pois aí Kierkegaard opõe a vida (ou melhor, o viver) a esta filosofia sistemática. Ou melhor, o que Kierkegaard tem em foco não é só a filosofia sistemática como sistema, mas a modificação subjetiva que ela impõe ao indivíduo como condição ao filosofar propriamente dito, modificação que é exigida para que se possa ser um filósofo: esta condição é a dúvida, é ter de duvidar de tudo. Como a filosofia exige um comportamento, uma postura, do indivíduo em relação ao mundo, ela exige que ele se modifique para ela, de modo que ser um filósofo é dedicar-se ou dedicar a sua vida à filosofia, mesmo que isto possa carecer de sentido ou que a vida do indivíduo careça de sentido por isto. Por isto, "tudo isso é culpa da filosofia", como escreve Kierkegaard.

Referência: KIERKEGAARD, Sören. Johannes Climacus: ou É preciso duvidar de tudo. Prefácio e notas Jacques Lafarge. Trad. Sílvia Saviano Sampaio e Álvoaro Luiz Montenegro Valls. São Paulo: Martins Fontes, 2003.