Demócrito"A alternância de corpo e de alma na matéria torna impossível, portanto, uma localização da alma: ela não reside em um lugar específico do corpo, como o cérebro ou a cabeça, mas em toda a parte e em lugar nenhum, disseminada, em todo lugar em que se encontra a matéria." (p. 64).
Isto merece uma busca nos textos de Heráclito, pois parecemos viver, hoje, não mais uma oposição mente-corpo, pois, de algum modo, a mente passa a ser entendida como imanente, ou, então, segundo um princípio de identidade; vivemos uma oposição cérebro-corpo, na qual as representações são feitas no e/ou pelo cérebro: representações cognitivas, por um lado, e representações corticais, por outro. Isto não parece nos permitir compreender o ser do homem (que é mais do que mero fenômeno), porque, além de tudo, o retira de seu lugar de origem e, por isto, o descaracteriza profundamente, destruindo-o. Uma antropologia fundamental (à qual todas as ciências humanas deveriam estar conjugadas) não pode deixar de entender o homem onde ele é propriamente, i.e., no mundo, um mundo que, inclusive, se nos apresenta como complexo, possuindo diversas facetas entrelaçadas.
Aristipo
"[...] ser capaz de aproveitar o instante propício, o famoso kairós, aquela ponta do tempo, aquela densidade na duração, aquele momento sem igual e sem esperança de retorno durante o qual se trata de apanhar o que deve ser apanhado e de captar o que o deve ser, pois antes será cedo demais, depois, tarde demais." (p. 118).
Eis aqui o velho problema do tempo, ou, mais propriamente, o problema do instante, posteriormente muito bem explorado por S. Kierkegaard. É um problema fundamental não só para a ontologia ou para uma filosofia da existência, mas, também, para uma filosofia ou ciência da consciência, da consciência enquanto estado e fluxo, porque o que percebemos, nós, além do instante? Ainda que projetemos algo que esperamos ocorrer no futuro ou nos lembremos de algo ocorrido no passado, a nossa atenção será sempre um instante, um eterno instante (até a morte); pode ocorrer que ela esteja dividida entre o aqui e agora e o seu diferente, mas, de qualquer forma, o seu diferente faz parte da própria unidade, uma unidade apenas definida pela ocorrência, e não pela harmonia entre as partes. E é por este fluxo que jamais me encontro em plena identidade comigo mesmo; a minha identidade é sempre suposta, porque o que encontro é apenas uma imagem especulativa do que eu mesmo sou (suponho que se trate de mim, embora saiba, de algum modo, que existe uma estranha conexão entre este eu aqui e agora e este eu a que me refiro), e não, de fato, aquele que sou, pois a minha consciência, em sentido amplo e segundo certa interpretação, consiste em atos intencionais e julgamentos que estão sempre em ocorrência (resta, contudo, o eu puro, transcendental). Quando busco me encontrar, novas associações são criadas, de modo que aquele objeto buscado é alterado em minha própria investida de buscá-lo, pois o associei já com o instante, o qual é diferente de tudo o que foi, mas, ao mesmo tempo, é também um instante. O problema deste tipo de interpretação é culminar em um idealismo, ou, no extremo, em um solipsismo; Husserl tentou desvencilhar-se dele através da intersubjetividade. Este tema merece investigações posteriores.
Epicuro
"Mais uma vez adversário e até inimigo de Platão, Epicuro afirma que os critérios da verdade residem nas sensações e nas afecções. Átomos do corpo que apreendem os átomos desprendidos da matéria, os simulacros, tudo invoca e supõe a conjunção atômica. Não há universo invisível, não há criaturas ideais, deuses ou conceitos, não há além-mundos inacessíveis aos sentidos mas apenas concebíveis -- e olhe lá -- pela alma, parte imortal e eterna de um corpo mortal, o real coincide muito exatamente com o que se vê, sente e percebe, o que nossos cinco sentidos nos informam." (p. 184).
Lucrécio
O clinâmen
"O que expressa a física atômica do clinâmen abre para perspectivas ontológicas, metafísicas. Dessas opções decorrem conseqüências éticas e políticas. O universo atômico é movido por uma liberdade assimilável a uma força da qual tudo provém. A declividade integra a liberdade num mundo então organizado diferentemente, ela possibilidade pois uma intersubjetividade, portanto uma vida social. Depois, em outros, a responsabilidade individual, cara aos adeptos de toda ordem coletiva... Tal capricho dos átomos inaugura um antidestino." (p. 262).
Neste parágrafo, o autor nos apresenta um princípio ontológico presente em Lucrécio que visa ir contra o mecanicismo e o determinismo puros, onde a liberdade não existe e o mundo é tornado potência cega, sem outra possibilidade ontológica, um mundo Uno, sem Outro; de tal determinismo profundo, um fatalismo, decorre que não possamos tomar atitudes éticas e políticas fundamentais, mas apenas aceitar o mundo como ele é. É de Lucrécio que Bergson retira inspiração para postular o elã vital.
Referência: ONFRAY, Michel. Contra-história da filosofia: as sabedorias antigas. Trad. Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
Comentários finais
Apesar de ser uma obra repleta de anacronismos e de interpretações demasiado pessoais, esta "Contra-história da filosofia" é interessante por nos mostrar o outro lado da história da filosofia: o hedonista e materialista. Vale ressaltar que eudaimonismo e hedonismo não são excludentes, como afirma o autor, porque hedonismo não é pura e simplesmente exacerbação dos prazeres, mas, antes, uma posição de tranquilidade perante a vida através da ótima medida dos prazeres (nem mais nem menos do que o necessário). Assim, é um convite a pensar a história da filosofia segundo outros critérios e a partir de outros textos, além de ser um alerta que mostra a própria ser muito mais heterogênea do que mostram os livros clássicos (coisa que já vem sendo superada, como, por exemplo, entre outros autores e livros, no livro de Danilo Marcondes: Iniciação à história da filosofia).