Conforme apontei noutro tópico, há um psicólogo espanhol, Pérez-Alvarez, que visa a aproximar o behaviorismo da fenomenologia. Atualmente, tive acesso, por meio de um amigo, a uma entrevista realizada com este psicólogo. Transcrevo alguns trechos a seguir:
"A fórmula existencialista tão célebre de ser-no-mundo também me parecia muito próxima à unidade de tríplice contingência: estímulo antecedente, resposta e conseqüência. Esses três termos constituem uma unidade e não uma separação ou uma ruptura. [...] Essa unidade, com sua construção temporal e com a orientação para o futuro que tem o comportamento operante, me parece inteiramente afinada à noção de ser-no-mundo e à estrutura temporal do ser como desenvolve Heidegger em Ser e tempo, ao postular que o ser humano está orientado em direção ao futuro e está sempre posto em situação; está ligado, fundido, unido com o mundo sem que haja uma mente interior, separada do corpo." (p. 12).
O autor, ao aproximar behaviorismo radical e fenomenologia (existencialista), visa opor-se ao cognitivismo e, por extensão, ao dualismo. Sobre a fenomenologia ele diz:
"[...] creio que lhe falta uma concepção do ser humano como sujeito operatório [própria do behaviorismo] [...] que atua, que muda o contexto, o mundo. Creio que há nessas filosofias uma espécie de sujeito transcendental que faz uma síntese quase automática do mundo e do conhecimento e que, no fundo, não se distanciam da noção tradicional de sujeito, de sujeito pensante." (p. 13).
"Creio que a fenomenologia e o existencialismo podem oferecer uma perspectiva mais desembaraçada, menos estreita e em termos menos técnicos, de laboratório, à filosofia do behaviorismo. Este, por sua vez, pode ser útil na medida em que coloca a ênfase na noção de sujeito operante. Sinto que falta uma maior elaboração da noção de pessoa nos escritos de Skinner, embora ele fala da pessoa como repertório de comportamentos. [...] é preciso elaborar esta noção relacionando-a com a noção de comportamento e de contingência, mas de modo a aproximá-la à noção de ser-no-mundo e creio que isso não deriva puramente do comportamentalismo. Também vejo limitações na fenomenologia e numa espécie de subjetivismo e não quero situá-la como a saída ou a referência a que deve recorrer o behaviorismo para elaborar melhor a noção de pessoa, sujeito ou eu." (p. 13).
Referência: Nico, Yara. Paradigma entrevista: Yara Nico entrevista Marino Pérez-Alvarez, Boletim Paradigma, v. 5, set. 2010, pp. 11-17.
Resta-nos saber até que ponto tal aproximação é possível, se é que é mesmo possível. Pérez-Alvarez aponta o fato de haver "fraquezas" em ambos os campos epistemológicos, mas toma conceitos que estão no interior destes mesmos campos apesar disto, quer dizer, sem verificar o que pode mudar em cada lado, em cada campo teórico, a partir da escolha de um conceito e rejeição de outro, pois sabemos, já desde o estruturalismo, que, em um sistema, um elemento depende de vários outros com os quais mantém relação. No entanto, devemos estar atentos para o fato de esta ser apenas uma entrevista, do que pode ocorrer de Pérez-Alvarez omitir muita coisa do que pensa e, por isto, de seu "sistema" (obviamente, em aberto); assim, é difícil concluir, daqui, alguma falha, restando-nos apenas uma referência e uma direção.