quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Nicholas Smith e a reflexão fenomenológica como atraso (Nachträglichkeit): investigações sobre o inconsciente

Recentemente, tive contato com a tese de doutorado de Nicholas Smith, um genial autor contemporâneo, cujo título é o seguinte: "Towards a phenomenology of repression, a Husserlian reply to the Freudian challenge". Nesta obra, o autor busca investigar as relações entre fenomenologia e psicanálise, especialmente em torno da noção psicanalítica de "repressão". Ao lançar luz sobre novos aspectos importantes da obra de Edmund Husserl, desafia as interpretações tradicionais do assunto, como as de Derrida, Merleau-Ponty e Ricoeur, para os quais a fenomenologia não seria capaz, principalmente por razões metodológicas, de alcançar o inconsciente freudiano e, por isso, permaneceria apenas no domínio pré-consciente. Assim, examina os limites da leitura fenomenológica da psicanálise a partir de um aparato teórico mais sofisticado do que a literatura tradicional. 
Abaixo, transcrevo apenas um trecho deste fascinante texto. Neste trecho, o autor comenta o trabalho de Klaus Held (Lebendige Gegenwart. Die Fragenach der Seinsweise des transzendentalen Ich bei Edmund Husserl, entwickelt am Leitfaen zer Zeitproblematik), com o qual dialoga ao longo de sua tese:


Na filosofia tardia de Husserl, toda constituição é conduzida de volta ao processo de temporização (Zeitigung), que é a fonte de toda presentificação (Gegenwärtigung), tipicamente resultado em atos de percepção sensória. A investigação da “passividade originária” leva à temporização tal qual ela se manifesta no presente vivido e Held argumenta que o eu transcendental, em seu nível mais profundo, deve ser identificado com a temporização. No coração da análise de Held, está o “enigma” (Rätsel) da vida transcendental que se origina, visto que seu presente pré-temporal apenas pode ser descoberto por meio da reflexão, enquanto que, ao mesmo tempo, fazendo-o desta forma, cobre-se o núcleo deste processo. A reflexão dá a forma já objetivada do que, anteriormente a ela, era um movimento fluído (streaming movement) originário e isto significa que a fala enigmática do pré-presente, uma fonte de dação pré-temporal cuja manifestação nós apenas podemos conhecer a partir de traços ontificados que ela deixa para trás, conduz a fenomenologia aos “limites da reflexão”. (SMITH, p. 16).


[...] Isto significa que a reflexão já “conhece” que há algo que a precede, que ela “conhece” a vida fluída originária, o que quer dizer que ela conhece a si mesma como algo que sempre e essencialmente deve vir depois do presente anônimo e a funcionar: a reflexão fenomenológica é Nachträglichkeit. (SMITH, p. 17).


O termo Nachträglichkeit pode ser traduzido, aproximadamente, por "extemporaneidade", "intempestividade", "tardio". Assim, exprime o caráter tardio de alguma coisa, indica algo que ocupa um tempo impróprio, ou que está atrasado em relação a outra coisa. Quando se diz que a reflexão fenomenológica é Nachträglichkeit, quer-se dizer que a temporização lhe escapa como assunto e que o tempo que lhe é próprio é já o de um atraso, visto que a reflexão cria a "imagem" do tempo, objetifica-o, torna-o estável, quando, na verdade, há o fluxo de movimento, que é, inclusive, a origem e condição de possibilidade da própria reflexão.

Referência: SMITH, Nicholas. Towards a phenomenology of repression: a Husserlian reply to the Freudian challenge. Doctoral Thesis in Theoretical Philosophy. Stockholm, Sweden: Stockholm University, 2010.