"Nós inventamos a felicidade - dizem os últimos homens e piscam o olho". Nós providenciaremos, com o auxílio de nossa sociologia, psicologia, psicoterapia e ainda com alguns outros meios, para que, de conformidade com isso, todos os homens sejam colocados, da mesma maneira, no mesmo estado da mesma felicidade e seja assegurada a igualdade do bem-estar de todos. Mas, a despeito dessa invenção da felicidade, os homens são caçados de uma guerra mundial na outra. Sinaliza-se para os povos que a paz seria a eliminação da guerra. Enquanto isso, na verdade, a paz, que elimina a guerra, só poderia ser assegurada por intermédio de uma guerra. Contra essa paz bélica abre-se novamente uma ofensiva de paz, cujos ataques mal se deixam designar como pacíficos. A guerra: asseguramento da paz; mas a paz: eliminação da guerra. Como pode a paz ser assegurada por aquilo que ela elimina? Aqui, no fundamento mais profundo, algo se escangalhou, ou talvez nunca tenha estado conjuntado. "Guerra" e "Paz" permanecem, porém, enquanto isso, como dois gravetos que os selvagens atritam permanentemente um no outro, para fazer fogo. (Heidegger, 1984, p.31)
E mais:
Antevendo tudo isso desde longe, a partir do mais elevado posto, Nietzsche, já nos anos 80 do século anterior, pronuncia para tanto a palavra simples, porque pensada: "O deserto cresce". Isso quer dizer: a devastação é mais sinistra do que o aniquilamento. A destruição elimina apenas aquilo que até então cresceu e foi construído. A devastação, porém, impede o crescimento futuro e todo construir... O Sahara, na África, é apenas uma espécie de deserto. A devastação da Terra pode caminhar junto tanto com a obtenção de um elevado padrão de vida para o homem como com a organização de um estado uniforme de felicidade de todos os homens. A devastação pode ser o mesmo com ambos e, do modo mais sinistro, transitar por toda parte, precisamente porque ela se oculta. (Heidegger, 1984, p. 30)
E isto não nos lembra também da situação imaginada por Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo? Trata-se da técnica que avança sub-repticiamente, sem que a percebamos diretamente em nossa cotidianidade, sem que nos demos conta de seu funcionamento; ela, que gera bem-estar, nos tranquiliza, dociliza, e, ao mesmo tempo, produz devastação: "O deserto cresce". A devastação atinge os nossos territórios e as nossas maneiras de nos relacionarmos com os outros; opera em nome da produção, do consumo, da repetição ou do eterno retorno do mesmo. Mas, ora: Quantas acusações e quantos alardes, quantos indícios de perigo! E, ainda assim, nós nos encontramos baixo o império da técnica! De modo negativo e pessimista, isto talvez nos leve a pensar: se até hoje nada bastou, nenhuma crítica e nenhum informe, o que nos resta fazer?