quarta-feira, 25 de julho de 2012

Heidegger sobre o bem-estar e a paz

"Nós inventamos a felicidade - dizem os últimos homens e piscam o olho". Nós providenciaremos, com o auxílio de nossa sociologia, psicologia, psicoterapia e ainda com alguns outros meios, para que, de conformidade com isso, todos os homens sejam colocados, da mesma maneira, no mesmo estado da mesma felicidade e seja assegurada a igualdade do bem-estar de todos. Mas, a despeito dessa invenção da felicidade, os homens são caçados de uma guerra mundial na outra. Sinaliza-se para os povos que a paz seria a eliminação da guerra. Enquanto isso, na verdade, a paz, que elimina a guerra, só poderia ser assegurada por intermédio de uma guerra. Contra essa paz bélica abre-se novamente uma ofensiva de paz, cujos ataques mal se deixam designar como pacíficos. A guerra: asseguramento da paz; mas a paz: eliminação da guerra. Como pode a paz ser assegurada por aquilo que ela elimina? Aqui, no fundamento mais profundo, algo se escangalhou, ou talvez nunca tenha estado conjuntado. "Guerra" e "Paz" permanecem, porém, enquanto isso, como dois gravetos que os selvagens atritam permanentemente um no outro, para fazer fogo. (Heidegger, 1984, p.31)

E mais:
Antevendo tudo isso desde longe, a partir do mais elevado posto, Nietzsche, já nos anos 80 do século anterior, pronuncia para tanto a palavra simples, porque pensada: "O deserto cresce". Isso quer dizer: a devastação é mais sinistra do que o aniquilamento. A destruição elimina apenas aquilo que até então cresceu e foi construído. A devastação, porém, impede o crescimento futuro e todo construir... O Sahara, na África, é apenas uma espécie de deserto. A devastação da Terra pode caminhar junto tanto com a obtenção de um elevado padrão de vida para o homem como com a organização de um estado uniforme de felicidade de todos os homens. A devastação pode ser o mesmo com ambos e, do modo mais sinistro, transitar por toda parte, precisamente porque ela se oculta. (Heidegger, 1984, p. 30)


Referência: Heidegger, Martin. Was heisst Denken?. Tübingen: M. Niemeyer, 1984. (citado em Giacóia Junior, Oswaldo. O último homem e a técnica moderna, Natura Humana, v. 1, n. 1, São Paulo, jun. 1999).

E isto não nos lembra também da situação imaginada por Aldous Huxley em seu Admirável Mundo Novo? Trata-se da técnica que avança sub-repticiamente, sem que a percebamos diretamente em nossa cotidianidade, sem que nos demos conta de seu funcionamento; ela, que gera bem-estar, nos tranquiliza, dociliza, e, ao mesmo tempo, produz devastação: "O deserto cresce". A devastação atinge os nossos territórios e as nossas maneiras de nos relacionarmos com os outros; opera em nome da produção, do consumo, da repetição ou do eterno retorno do mesmo. Mas, ora: Quantas acusações e quantos alardes, quantos indícios de perigo! E, ainda assim, nós nos encontramos baixo o império da técnica! De modo negativo e pessimista, isto talvez nos leve a pensar: se até hoje nada bastou, nenhuma crítica e nenhum informe, o que nos resta fazer?

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Notas introdutórias sobre "Força e significação", de Jacques Derrida

Referência: Derrida, Jacques. Força e significação. In: Derrida, Jacques. A escritura e a diferença. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. 2.a. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995, p. 11-52.

Neste texto, originalmente publicado em 1963 na revista Critique, Derrida apresenta uma crítica aos fundamentos metafísicos do estruturalismo e da tendência, em crítica literária, mas também mais geral, de reduzir a força à forma, o caos à ordem, o movimento à imobilidade, o dionisíaco ao apolíneo. Esta postura estruturalista perde a dimensão criadora em face de uma geometrização da obra. Vê-se também neste ensaio uma crítica à priorização da fala, critica operada por Derrida em outros textos inclusive, mas que fornece o cenário para apontar os pontos fracos de uma crítica literária estruturalista, cujo escopo é delimitar, como que dentro de uma película, os atos de criação e os atos do sentido, ou, aliás, o próprio sentido, geometrizando-os, enquadrando-os, organizando-os muito minuciosamente; disto decorre uma concepção segundo a qual aquilo que está por vir está já contido, em estado germinal, na coisa dada, apertando dentro daquela película o próprio devir e fechando-o: esta é a própria estrutura. Desta totalidade já concebida decorre outra coisa: que o sentido esteja circunscrito pela própria estrutura, maior do que a forma. A estrutura inclui, também, o sentido, a própria forma, a solidariedade e aquela totalidade. No chamado por uma escuta da força, da diferença e da multiplicidade, contra o telos único do Livro de Leibniz, contra o sentido único proposto pelo mesmo, este escrito aponta para a concretude mundana da escritura marcada pela historicidade. No chamado por uma força de deslocação contra a teleologia pré-formista e contra o sistema já cristalizado, um sistema que prolonga a tradição metafísica, marcada pela oposição do aparecimento-velamento, Derrida nos convida a celebrar o impulso, a diferença, o próprio Dionísio: a escritura que é um outro no ser, um excesso, autônoma em relação à fala, não lhe valendo, de modo algum, a metáfora enrijecida.

Resumo de "O estádio do espelho como formador da função do eu", de Jacques Lacan


Texto: O estádio do espelho como formador da função do eu
Neste texto, originalmente apresentado como comunicação no XVI Congresso Internacional de Psicanálise, em Zurique, na data de 17 de julho de 1949, Lacan, nascido em 1901, falecido em 1981, oferece a sua visão sobre o tema da formação do eu e de sua função. A sua função, do eu, basicamente entendida, é “proteger” o sujeito, daí que Lacan se utilize da metáfora do campo fortificado e da armadura para referir-se ao eu. Ponto interessante é este em que aparece a fratura entre o eu e o sujeito, uma particularidade da psicanálise desde Freud em que o sujeito não é entendido como equivalente à consciência e, por isto, ao eu. Ao contrário, o eu (embora, como diz Freud, tenha conexões profundas com o inconsciente, é mais facilmente caracterizado pelo atributo da consciência) é entendido como apenas uma "parte" do sujeito (cuja maior e mais expressiva "parte" é inconsciente). Assim, como Lacan já aponta no início de seu texto, a sua perspectiva se opõe a toda a filosofia do cogito. Como se sabe, a filosofia do cogito é, mutatis mutandis, a filosofia da primazia da consciência, de sua centralidade, ou melhor, do egocentrismo. Outro ponto de expressão de uma tal filosofia é o existencialismo, cujo solo fértil é o pensamento francês dos anos 40 e 50 do século XX. Contra tal corrente, Lacan proporá a fase (ou estádio, como amplamente citado) do espelho como formadora da função do eu – título do presente texto. A fase do espelho demarca o delineamento da função do eu através da identificação, isto é, da modificação do sujeito através da incorporação de imagens; assim a fase própria funciona como ponto de transição entre o corpo fragmentado e a “armadura”, quer dizer, o eu rígido e estático, aquele que já tem uma imagem. Lacan chama esta função do eu de alienante: trata-se de uma alienação do sujeito, de um afastamento após a fundação do “campo fortificado”, da inauguração de uma vivência para esse “pouco de realidade” conclamado e que, por sua vez, delineia o sujeito à determinação social e ao relacionamento com o outro. Este eu antes de sua determinação social, conforme nos diz Lacan, por ser ainda mais primitivo, talvez devesse ser registrado, na categoria freudiana, como eu-ideal. Fundamental e indispensável para a compreensão de um pensamento anticartesiano e de uma psicanálise rigorosa, este é o ganho deste texto. Contudo, vale dizer que talvez não seja possível entendê-lo sem uma iniciação à terminologia lacaniana.

Referência: Lacan, Jacques. Le stade du miroir comme formateur de la fonction du Je: telle qu’elle nous est révélée dans l’expérience psychanalytique. In: ______. Écrits. Paris: Éditions du Seuil, 1966, p. 89-97.

Resumo de "'Gênese e estrutura' e a fenomenologia", de Jacques Derrida


Texto: “Gênese e estrutura” e a fenomenologia[1]


Texto complexo e de difícil leitura, “Gênese e estrutura e a fenomenologia” foi originalmente uma conferência pronunciada em 1959 em Ceisy-la-Salle e posteriormente publicada na coletânea Genèse et structure (dirigida por Gandillac, Goldmann e Piaget), em 1964. Em tal texto, Derrida retoma algo do conteúdo de sua tese doutoural ("Le problème de la genèse dans la philosophie de Husserl") sobre o livro “A origem da geometria” de Edmund Husserl. Parte-se de uma crítica (em sentido amplo) ao estruturalismo presente na fenomenologia para, então, apresentar um questionamento da relação entre gênese e estrutura na própria. De duas noções de estrutura – uma aberta ao devir e outra fechada – o autor parte para avaliar a relação da fenomenologia de Husserl com o pensamento historicista de Dilthey e apresenta as críticas feitas pela primeira a este último, tendo em vista a regionalização – característica compartilhada pela preocupação genética historicista e psicologista. Investiga um caminho traçado por Husserl em direção a uma gênese em geral, a qual tem estreita relação com uma estrutura em geral e com a redução transcendental operada na fenomenologia. Esta redução busca a totalidade das regiões em geral, o sentido e a origem do devir em geral; e isto aponta para o nada, o nada que traça o paralelo entre a fenomenologia transcendental e a psicologia fenomenológica. Questionando as condições da redução transcendental, Derrida aponta uma abertura: o da gênese da própria pergunta, que é anterior à resposta, fundamento da redução operada pelo Eu transcendental.



[1] In: Derrida, Jacques. "Gênese e estrutura" e a fenomenologia. In: Derrida, Jacques. A escritura e a diferença. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. 2.a. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995, p. 83-107.

Princípios fundamentais da diferença paradigmática entre ciências naturais e ciências históricas na ontologia de Heinrich Rickert


a) Os princípios que determinam, na ontologia da natureza, a objetividade do cognoscível na natureza em geral (no campo ontológico da natureza em geral), eles se baseiam na filosofia da natureza, a qual trata natureza como uma "totalidade acabada".

b) Os valores científicos das ciências históricas (sociais, humanas) possuem uma significação particular, própria do material com que trabalham estas ciências, a saber, o material histórico.

Comentários: Como se pode ver, a diferença ontológica reside no tratamento do "objeto" (na filosofia de H. Rickert, a ontologia é a ciência do objeto): para as ciências da natureza, a natureza é uma "totalidade acabada"; para as ciências históricas, o seu material é histórico (o que significa: jamais totalizado).

Baseado em: Krijnen, Christian. Le problème de la fondation de l'ontologie sociale, Les études philosophiques, n. 1, 2010, p. 67-86.

domingo, 22 de julho de 2012

Jacobi e a "criatura completamente nova" do domínio especulativo: carta a Fichte


Em uma carta a Fichte, Jacobi diz:
Resulta inegável que o espírito da filosofia especulativa, pelo que teve de ser continuamente impulsionada desde os seus primórdios, consiste em tornar desigual a certeza destas duas proposições, que, sem embargo, possuem igual certeza ao homem natural: “Eu sou e existem as coisas externas a mim”. Esta filosofia teria que tentar submeter uma destas proposições à outra, derivar completamente aquela desta ou esta daquela, para que sob seus olhos, o que tudo vê, apareça somente um ser e uma só verdade! Se for bem sucedida a especulação em produzir esta unidade, aumentando essa desigualdade ao ponto de que, por trás da destruição daquela igualdade natural, fizesse surgir uma igualdade artificial do mesmo Eu e NãoEu manifestamente existente no saber – uma criatura completamente nova {p. 486} que pertence exclusivamente a esta especulação! –, se for bem sucedida, digo então que poderia chegar a produzir também, perfeitamente, a partir de si mesma uma ciência completa do verdadeiro[1].

Jacobi está, aí, caracterizando o idealismo transcendental: um só ser e uma só verdade. Aliás, para ele, todo monismo reconduz a este mesmo princípio, de tal modo que o materialismo não seria mais do que um idealismo invertido. A oposição entre este eu natural e algo como um novo eu, artificial, o puro (transcendental), diz respeito, pois, ao projeto fenomenológico também.


[1] JACOBI, F. H. Carta a Fichte: Eutin, 3 marzo 1799. In: Cartas a Mendelssohn y otros textos. <Prólogo, traducción y notas de José Luis Villacañas>. Barcelona: Círculo de Lectores, 1996, pp. 485-6.

terça-feira, 17 de julho de 2012

As ciências humanas e a política do corpo, segundo Foucault

A tessitura carcerária da sociedade realiza o mesmo tempo as captações reais do corpo e sua perpétua observação; é, por suas propriedades intrínsecas, o aparelho de punição mais de acordo com a nova economia do poder, e o instrumento para a formação do saber que essa mesma economia tem necessidade. Seu funcionamento panóptico lhe permite desempenhar esse duplo papel. Através de seus processos de fixação, repartição, registro, foi ele por muito tempo uma das condições, a mais simples, a mais primitiva, a mais material também, mas talvez a mais indispensável, para que se desenvolvesse essa imensa atividade de exame que objetivou o comportamento humano. Se entrarmos, depois da era da justiça "inquisitória", na da justiça "examinatória", se, de uma maneira ainda mais geral, o procedimento do exame pôde estender-se tão amplamente à sociedade toda, e dar lugar às ciências do homem, um dos grandes instrumentos disso foi a multiplicidade e o entrecruzamento preciso dos diversos mecanismos de encarceramento. Não quer dizer que da prisão saíram as ciências humanas. Mas se elas puderam se formar e provocar no êpistemê todos os efeitos de profunda alteração que conhecemos, é porque foram levadas por uma modalidade específica e nova de poder: uma certa política do corpo, uma certa maneira de tornar dócil e útil a acumulação dos homens. Esta exigia a implicação de correlações definidas de saber nas relações de poder: reclamava uma técnica para entrecruzar a sujeição e a objetivação: incluía novos procedimentos de invidualização. A rede carcerária constitui uma das armaduras desse poder-saber que tornou historicamente possíveis as ciências humanas. O homem conhecível (alma, individualidade, consciência, {p. 289:} comportamento, aqui pouco importa) é o efeito-objeto desse investimento analítico, dessa dominação-observação. (pp. 288-9).

Referência: FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Trad. Raquel Ramalhete. 36a. ed. Petrópolis: Vozes, 2009 <original: Surveiller et punir, Éditions Gallimard, 1975>.

A escola de disciplina de Mettray, a gênese da psicologia científica e a sua relação com a técnica disciplinar, segundo Foucault

Mettray [que foi aberta oficialmente em 22 de janeiro de 1840] é sobretudo um exemplo na especificidade que lhe é reconhecida nessa operação de adestramento. Ela se aproxima de outras formas de controle sobre as quais ela se apóia, isto é, na medicina, na educação geral, na direção religiosa. Mas não se confunde absolutamente com elas. Os homens da direção: chefes, ou subchefes de família, monitores ou contramestres, tinham que viver bem próximos dos colonos; usavam uma roupa "quase tão humilde" quanto a deles; praticamente nunca os deixavam, vigiando-os dia e noite; constituíam no meio deles uma rede de observação permanente. E para a formação destes chefes fora organizada na colînia uma escola especializada. O elemento essencial de seu programa era submeter os futuros administradores aos mesmos aprendizados e às mesmas coerções que os próprios detentos: eram "submetidos como alunos à disciplina que deveriam como professores impor mais tarde". Era-lhes ensinada a arte das relações de poder. Primeira escola normal da disciplina pura: o "penitenciário" não é simplesmente um projeto que procura sua caução na "humanidade" ou seus fundamentos numa "ciência"; mas uma técnica que se aprende, se transmite, e que obedece a normas gerais. A prática que normaliza à força o comportamento dos indisciplinados ou dos perigosos pode ser por sua vez "normalizada" por uma elaboração técnica e uma reflexão racional. A técnica disciplinar torna-se uma "disciplina" que, também, tem sua escola.
 A certidão de nascimento da psicologia científica segundo os historiadores das ciências humanas é passada com data dessa época. Weber, para medir as sensações, teria começado a manipular seu pequeno compasso nesses mesmos anos. O que se passa em Mettray (e nos outros países da Europa um pouco mais cedo ou {p. 281:} um pouco mais tarde) é evidentemente de outra ordem inteiramente diversa. É a aparição ou antes a especificação institucional e como que o batismo de um novo tipo de controle - ao mesmo tempo conhecimento e poder - sobre os indivíduos que resistem à normalização disciplinar. E no entanto, na formação e no crescimento da psicologia, o aparecimento desses profissionais da disciplina, da normalidade e da sujeição, vale bem sem dúvida a medida de um limiar diferencial. Dir-se-á que a estimação quantitativa das respostas sensoriais podia pelo menos usar a autoridade dos prestígios da fisiologia nascente e que a esse título merece constar na história dos conhecimentos. Mas os controles de normalidade eram, por sua vez, fortemente enquadrados por uma medicina ou uma psiquiatria que lhes garantiam uma forma de "cientificidade"; estavam apoiados num aparelho judiciário que, de maneira direta ou indireta, lhes trazia sua canção legal. Assim, ao abrigo dessas duas consideráveis tutelas e aliás servindo-lhes de vínculo, ou de lugar de troca, desenvolveu-se continuamente até hoje uma técnica refletida do controle das normas. Os suportes institucionais e específicos desses processos se multiplicaram desde a pequena escola de Mettray; seus aparelhos aumentaram em quantidade e em superfície; seus laços se multiplicaram, com os hospitais, as escolas, as repartições públicas e as empresas privadas; seus agentes proliferaram em número, em poder, em qualificação técnica; os técnicos da indisciplina fizeram escola. Na normalização do poder de normalização, na organização de um poder-saber sobre  os indivíduos, Mettray e sua escola fazem época. (pp. 280-1).

Referência: FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Trad. Raquel Ramalhete. 36a. ed. Petrópolis: Vozes, 2009 <original: Surveiller et punir, Éditions Gallimard, 1975>.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Foucault: as relações de poder-saber e o sujeito do conhecimento

"Temos [...] que admitir que o poder produz saber (e não simplesmente favorecendo-o porque o serve ou aplicando-o porque é útil); que poder e saber estão diretamente implicados; que não há relação de poder sem constituição correlata de um campo de saber, nem saber que não suponha e não constitua ao mesmo tempo relações de poder. Essas relações de "poder-saber" não devem então ser analisadas a partir de um sujeito do conhecimento que seria ou não livre em relação [na tradução, está "redação"] ao sistema do poder; mas é preciso considerar ao contrário que o sujeito que conhece, os objetos a conhecer e as modalidades de conhecimentos são outros tantos efeitos dessas implicações fundamentais do poder-saber e de suas transformações históricas. Resumindo, não é a atividade do sujeito de conhecimento que produziria um saber, útil ou arredio ao poder, mas o poder-saber, os processos e as lutas que o atravessam e que o constituem, que determinam as formas e os campos possíveis do conhecimento." (p. 31).

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. 36a. ed. Petrópolis: Vozes, 2009 <original: Surveiller et punir, Éditions Gallimard, 1975>.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Eu transcendental


Seção 11 da Primeira Meditação ("Rumo ao "ego" transcendental") das Meditações Cartesianas de Husserl: "O "eu" psicológico e o "eu" transcendental. A transcendência do mundo."

"Esse eu e sua vida psíquica, que mantenho necessariamente apesar da εποχη, não são uma parte do mundo [...]" (p. 42).


Neste parágrafo, inicial da seção 11, Husserl visa distinguir o eu transcendental do eu empírico, este último percebido pela intuição natural que o homem tem dele mesmo, considerado como homem natural (cf. a mesma página). O eu empírico é aquele considerado pelas ciências positivas, enquanto que o eu transcendental visa fundamentar as próprias ciências, ser um eu puro ou fenomenológico. Este trecho é complementado por um que segue os dois que coloquei abaixo, mas que, por ser mais ligado a este, colocarei em seguida a ele, e não aos outros, como está no texto, ou seja, a sequência original do texto é "2", "3" e "1" (os números não existem no texto original).


"[...] se o eu reduzido [resultado da redução fenomenológica] não é uma parte do mundo, da mesma forma,inversamente, o mundo e seus objetos não são partes reais do meu eu. Não é possível encontrá-los em minha vida psíquica como partes reais dessa vida, como um complexo de dados sensoriais ou de atos psíquicos [visto que o eu transcendental é puro]. Essa transcendência [que é correlato de transcendental, mas não o mesmo] é inerente no sentido específico de tudo o que faz parte do mundo, ainda que não possamos dar a esse "mundo" e a suas determinações nenhum outro sentido senão aquele que extraímos de nossas experiências, representações, pensamentos, julgamentos, de valor e ações, da mesma forma que não podemos justificar a atribuição a esse mundo de uma existência evidente, a não ser partindo de nossas próprias evidências e atos. Se essa "transcendência" de inerência irreal pertence ao sentido próprio do mundo, então o eu em si, que carrega nele o mundo como unidade de sentido e que justamente por isso é uma premissa necessária dele, esse eu chama-se transcendental no sentido fenomenológico do termo, e os problemas filosóficos decorrentes desta correlação chamam-se problemas filosóficos transcendentais." (p. 43).

"A vida psíquica, de que fala a psicologia, sempre foi concebida como vida psíquica no mundo. Isso vale manifestamente também para minha própria vida, já que podemos captá-la e analisá-la na experiência puramente interna. [...] a εποχη [epoche, redução fenomenológica: o colocar o mundo "entre parênteses"] [...] inibe o valor existencial do mundo objetivo e, dessa forma, o exclui totalmente do campo dos nossos julgamentos. O mesmo se dá com o valor existencial de todos os fatos objetivamente constatados pela experiência externa, assim como daqueles da experiência interna. Para mim, sujeito que medita, colocado e persistindo na εποχη, e posicionando-me assim como fonte exclusiva de todas as afirmações e de todas as justificações objetivas, ele não é, portanto, nem eu psicológico nem fenomênos psíquicos no sentido da psicologia, ou seja, comprendidos como elementos reais de seres humanos (psicofísicos)." (p. 43).


E:

"Pela εποχη fenomenológica, reduzo meu eu humano natural e minha vida psíquica – domínio de minha experiência psicológica interna – a meu eu transcendental e fenomenológico, domínio da experiência interna transcendental e fenomenológica. O mundo objetivo, que existe para mim, que existiu ou existirá para mim, esse mundo objetivo com todos os seus objetos encontra em mim mesmo, como disse acima, todo o sentido e todo o valor existencial que tem para mim; ele os encontra no meu eu transcendental, que só revela a εποχη fenomenológica transcendental." (p. 43).

Referência: Husserl, Edmund. Meditações Cartesianas: Introdução à fenomenologia. Tradução Frank de Oliveira. São Paulo, SP: Madras, 2001.

Lista de pesquisadores e grupos de pesquisa em neurociências cognitivas

Esta é uma lista de pesquisadores e de grupos de pesquisa reconhecidos na área de neurociências cognitivas e afins, com links para seus perfis, currículos, laboratórios e websites. Anoto os nomes dos pesquisadores aqui para que esta seja uma diretriz de busca sobre os seus trabalhos, com o objetivo de poder estudá-los, no futuro, com maior profundidade. Como esta lista pode ser alimentada a qualquer momento, não deixe de enviar sugestões, caro leitor.

Pesquisadores


Há, também, algumas listas interessantes na Wikipedia em inglês:
Obs.: Algumas entradas ainda estão pobres de informação.

Grupos de Pesquisa