A continuação da I Meditação é clara: trata-se de deslocar o privilégio da evidência da presença do mundo para a presença do ego. Essa contestação da pseudoevidência (Selbstverständlichkeit) ligada à presença do mundo é a epochè transcendental em si mesma. Ela é efetuada muito rapidamente nas Meditações cartesianas e não pede senão os preparativos e as intermináveis precauções das Ideen. Mas não é fácil surpreendder o seu motivo: a experiência, diz Husserl, não exclui a possibilidade que o mundo não exista. Portanto, é para a apoditicidade da experiência do mundo que se dirige o esforço crítico. Reconhece-se, aí, a aplicação do método das variações imaginativas: nada resiste à imaginação metafísica que não exista o mundo. Não se acha mais traço da vertigem e da ansiedade cética dos textos de 1905-1907. Na verdade, é a certeza do caráter primeiro do ego cogito que sustenta essa prova metódica pela hipótese do não ser e assim dilacera a ilusão que se liga à presença sempre anterior (vorgegeben) do mundo. A certeza do caráter apodítico do ego cogito está operando no desafio lançado à presença familiar e envolvente do mundo sempre-já-aí. Desmorona-se aquilo que se dava como "solo ontológico" (Seinsboden); e dissipa-se a "crença ontológica" (Seinsglauben) que lhe era concedida, não deixando mais que o fenômeno-do-mundo-para-minha-consciência, ou seja, um mundo-percebido-na vida reflexiva. Se essa operação é relatada brevemente aqui, em compensação dissipa-se o equívoco das Ideen: esta obra apresentava a consciência como um "resíduo" como aquilo que "resta" quando se põe entre parênteses o ser da operação. (p. 181 [fr.167]).
E Ricoeur continua com a exposição husserliana da apropriação do seu "próprio" (eigen), isto é, do reconhecimento de que o mundo é para-mim. O mais interessante do que se segue é a diferença que o autor nos faz notar entre a concepção de epochè nas Ideen e nas Meditações: no primeiro caso, trata-se de colocar o mundo entre parênteses; no segundo, o mundo é "modificado 'fenômeno de ser'" (p. 182), sendo conservado em todas as suas modalidades (real, provável, possível; verdadeiro, falso; observado com atenção, não observado, etc.). A questão fundamental, aqui, é a da "verdade primeira". Na busca de radicalizar o projeto cartesiano, entretanto deixando de lado a sua dupla estrutura (foco no cogito e em Deus, sendo aquele transcendido por Este), Husserl busca exaurir do mundo o seu caráter de verdade primeira, pois a sua filosofia não se funda em uma ontologia, não se funda no Ser como aquilo que "dá um peso de realidade ao objeto" (p. 177), muito menos como aquilo que fundamenta a realidade do ego; o mundo como absoluto é concebido como uma ingenuidade, um preconceito, e, portanto, como uma pseudoevidência. Assim, busca o ato primário das ciências, o seu verdadeiro fundamento, na consciência, mas em uma consciência que seja pura de todo conteúdo dado antecipadamente, coisa que mesmo Descartes falhou em fazer ao adotar o pré-dado científico da física matemática como fundamento de sua filosofia.
Referência: RICOEUR, Paul. Estudo sobre as Meditações Cartesianas de Husserl [texto publicado pela primeira vez em 1954]. In:______. Na Escola da Fenomenologia. Trad. Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis: Vozes, 2009.