quarta-feira, 18 de maio de 2011

Inteligência Artificial Simbólica e Percepção

"A IA [Inteligência Artificial] Simbólica assume, como seu principal ponto de partida, que a inteligência se refere à manipulação de símbolos conforme regras formais e fixas. Uma série de assunções é feita para chegar a essa ideia. Uma primeira, assunção necessária, é que todos os processos inteligentes, incluindo o perceber, o raciocinar, o calcular, e o uso da linguagem, são formas de processamento de informação, isto é, de absorção da informação do ambiente, processamento ou manipulação dessa informação, e fornecimento de uma resposta. [...]  [Nesse sentido] aquilo que organismos inteligentes e sistemas têm em comum é que são sistemas de processamento de informação."

"Uma vez que essa assunção seja feita, uma pessoa é levada, naturalmente, a fazer as duas seguintes questões: qual é o caráter dessa informação e como ela é "processada"? Nessa conjuntura,  a IA simbólica tem duas assunções centrais. Em resposta à primeira questão, ela assume que, para ser processada por um sistema de processamento de informação, a informação deve ser, primeiro, representada. Para manipular a informação, o sistema deve, primeiro, operar com um meio [medium] no qual a informação possa ser inscrita. Tal meio, o qual fornece informação sobre a realidade externa, é chamado de representação. [...] Os sistemas de processamento de informação compreendem o uso de representações internas, todas dadas em uma forma adaptada àquilo que elas manipulam. Assim, supõe-se que o pensamento humano trabalhe através de um sistema interno de representações mentais no qual os nossos pensamentos, percepções e memórias são todas inscritas."
[Tenho acesso apenas ao preprint; por isso, falta a paginação]

Brey, P. Hubert Dreyfus: Human versus Machine. In: Achterhuis, H. (ed.). American Philosophy of Technology: The Empirical Turn. [s.l.] Indiana University Press, 2001, pp. 37-63.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Do dado ao que não é atualmente dado

Aquilo que me dá, com as faces visíveis do objeto, as faces não visíveis, essa síntese, que conduz do dado àquilo que não é atualmente dado não é uma síntese intelectual, que coloca livremente o objeto total; é como uma síntese [45-6] prática: eu posso tocar a lâmpada, e não somente, amiúde, a face que está virada a mim, mas, também, o outro lado; bastaria estender a mão para o saber. (p. 45-46).

Merleau-Ponty, Maurice. Le primat de la perception: et ses conséquences philosophiques. Lonrai : Éditions Verdier, 1996 [imprimé en avril 2004].

Observe-se, aqui, o giro operado pelo autor: da síntese intelectual à síntese prática, do sujeito intelectual ao operar do sujeito, ou sujeito operante ("bastaria estender a mão para o saber").

Merleau-Ponty e o primado da percepção

A certeza do pensamento não funda aquela da percepção, mas repousa sobre ela do mesmo modo que é a experiência da percepção que nos ensina a passagem de um momento a outro e procura a unidade do tempo. Nesse sentido, toda consciência é consciência perceptiva, mesmo a consciência de nós mesmos. (p. 42).

O mundo percebido será o fundo sempre pressuposto por toda racionalidade, todo valor e toda existência. Uma concepção desse tipo não destrói a racionalidade, tampouco o absoluto. Ela busca fazê-los descer à terra. (p. 43).

Merleau-Ponty busca restaurar o fundamento da racionalidade, do valor e da existência a partir da percepção. Trata-se, portanto, de uma teoria fundamental da percepção, no que se contrapõe a uma teoria axiológica da consciência e da racionalidade.

Referência: Merleau-Ponty, Maurice. Le primat de la perception: et ses conséquences philosophiques. Lonrai : Éditions Verdier, 1996 [imprimé en avril 2004].


domingo, 15 de maio de 2011

Percepção em Wundt

Se nós dirigirmos a nossa atenção a um tom particular, ou a um objeto visual particular, em exclusão de outras impressões de luz e som, nós temos na orelha ou no olho sensações musculares definidamente graduadas, as quais podem ser provavelmente referidas ao tensor tympani e aos músculos, facilitando a acomodação e o movimento do olho. As mesmas sensações podem ser percebidas, ainda que menos claramente, acompanhando a ideação memorial [poderíamos dizer: introspecção de recordação], ao menos quando as ideias são vívidas. Um objeto visto com a mente do olho é referido [como estando] a certa distância de nós, e acomodamos, por consequência, o aparato muscular do olho a ele. Os tons de uma melodia que nós recordamos na memória podem fazer surgir uma tensão na orelha tão claramente perceptível como se eles fossem reais. (p. 247).

WUNDT, Wilhelm. Lectures on human and animal psychology. Traduzido da segunda versão alemã por J. E. Creighton e E. B. Titchener. London: Swan Sonnenschein & Co. / New York: Macmillan & Co., 1896.


Nesse trecho do texto de Wundt, podemos ver a posição clássica da teoria da percepção, que carrega o representacionalismo. Apontaremos, aqui, os seus problemas, brevemente. O índice de realidade de um objeto percebido é dado a partir de um objeto supostamente real, e, além disso, o objeto percebido é percebido outra vez por algo como um órgão da percepção interno ("olho da mente", em um caso, e, no outro, aquela "tensão na orelha" ocasionada pela memória). Primeiro, como posso estabelecer o índice de realidade de um objeto2 a partir de um objeto1 se o que me é dado à consciência é nada mais do que o objeto2? O objeto1, assim, permanece hipotético. Segundo, como posso dizer que aquilo que percebo me é dado por um sentido perceptivo externo ao passo que a minha percepção é realizada por sentidos perceptivos internos? Devo perceber os sentidos externos através dos sentidos internos? Assim, qual seria a diferença dos sentidos externos e dos objetos? E, se houvesse um objeto para além desse canal entre os sentidos externos e os internos, digamos, um objeto externo (transcendente, estrangeiro), como poderia eu dizer que esse objeto existe, se o que percebo é um objeto já percebido (no interior da percepção)?

sábado, 14 de maio de 2011

Primado da Percepção e Noção de Estímulo

Uma teoria da percepção deve reclamar seu lugar na determinação do que seja um estímulo e de como opera o controle de estímulos? Já discutimos o problema do estímulo inócuo. Mas a centralidade da percepção (o "primado da percepção", conforme M. Merleau-Ponty) colocaria um problema sobre a própria efetividade (ontológica) de um estímulo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Skinner e o representacionalismo

In an operant analysis, and in the radical behaviorism built upon it, the environment stays where it is and where it has always been - outside the body. (p. 73).
A person is changed by the contingencies of reinforcement under which he behaves; he does not store the contingencies. In particular, he does not store copies of the stimuli which have played a part in the contingencies. There are no "iconic representations" in his mind; there are no "data structures stored in his memory"; he has no "cognitive map" of the world in which he has lived. He has simply been changed in such a way that stimuli now control particular kinds of perceptual behavior. (p. 84).
Há vários pontos nesse texto de Skinner em que podemos aproximá-lo de Merleau-Ponty. Não se trata de aproximar os seus sistemas teóricos e conjugar um a partir do outro. Ambos parecem lidar com os mesmos problemas básicos e as suas consequências parecem ser semelhantes, embora distintas. O interessante de aproximá-los será ver como o caminho percorrido por eles levou a tais ou quais consequências, e a partir daí poderemos extrair as nossas próprias.  Podemos resumir, drasticamente, alguns pontos sobre os quais eles incidem: (1) ambos não concordam com a teoria cognitivista da percepção e da memória segundo a qual os dados da percepção são "traduzidos" para uma "localização" (mental ou cerebral) por meio da "representação" (eis o "representacionalismo"); (2) ambos veem no primado do cérebro aquele mesmo dualismo alma-corpo da filosofia racionalista; (3) ambos colocam a pessoa em sua relação com o mundo no centro de suas considerações teóricas, isto é, não um sentido da percepção ou outro, mas o conjunto de determinações a que está entrelaçada, entre outras coisas as quais cabem ser avaliadas posteriormente. Vale ressaltar, aqui, que o representacionalismo oferece um problema. Esse problema é o de determinar como a pessoa percebe aquilo que é representado, se o processo de perceber é ele mesmo o processo de representar. Isso, como se vê, cria uma infinita cadeia de "representações", as quais restam inexplicadas (redução ao absurdo). A representação, contudo, já foi vista por muitos como a pedra angular da psicologia no que tange a sua diferença com relação à fisiologia. Sem a representação, a psicologia não seria mais do que fisiologia. Se Skinner e/ou Merleau-Ponty estiverem "corretos", então não devemos ceder à tentação representacionalista.

Referência: Skinner, B. F. About behaviorism. New York: Alfred A. Knopf, Inc., 1974.