segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O esquecimento da origem da geometria, segundo A. Gurwitsch

Por meio da fenomenologia constitutiva, Gurwitsch analisa a origem da geometria e seu esquecimento:


“Estabelecido, desenvolvido e praticado no decurso de séculos, o método da geometria se transformou em uma técnica que pode ser adquirida e tornada habitual, que alguém pode aprender a dominar e a usar. Este processo é, ao mesmo tempo, um de consolidação e ofuscação, ofuscação, precisamente, da “origem” histórico-intencional da geometria, de seu enraizamento na experiência pré-geométrica do Lebenswelt. O último permanece o que ele é e nós continuamos a viver e a buscar todas as nossas atividades em seu interior com ou sem a posse do método geométrico ou, para este efeito, de qualquer método científico. Esta não é senão a última fase do processo de originação da geometria, o resultado acabado ao qual este processo conduz, o qual é conservado, enquanto o próprio processo é perdido de vista. Quando a geometria é, por conseguinte, tomada como constituída e estabelecida, em separado do próprio processo de sua origem, ela sofre certa transformação de sentido. Ela não é entendida como uma conquista mental de ordem superior, envolvendo o processo de idealização e, então, fundada sobre e pressupondo a experiência pré-geométrica do Lebenswelt sobre o qual a idealização é desempenhada. Tendo se tornado uma tradição, uma aquisição estabelecida e consolidada à disposição de quem quiser aprender a dominar os seus métodos, a geometria parece repousar sobre os seus próprios fundamentos.” (GURWITSCH, 2009/1956, p. 459).


Referência: GURWITSCH, Aron. The Last Work of Edmund Husserl (pp. 447-502). In: KERSTEN, Fred (Ed.). The Collected Works of Aron Gurwitsch (1901-1973), Volume II: Studies in Phenomenology and Psychology. Heidelberg/Dordrecht/London/New York: Springer, 2009. <Originalmente publicado em duas partes em Philosophy and Phenomenological Research, XVI (1956) e XVII (1957).>

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O sacrifício, para Jan Patocka


"O que quer que ele seja, o sacrífico radical nos parece ser a experiência, própria a nosso presente e ao passado recente, que poderá vir a ser o ponto de partida de uma reviravolta em nossa compreensão do mundo e da vida, capaz, sem depreciação romântica, de trazê-la, enfim, de volta a si mesma e, deste modo, de sobrepujar a era da compreensão técnica, tão rica em aparência, mas atingida pela pobreza em sua essência." (PATOCKA, 1990, p. 275).

Na época em que os homens são contados como números, em que a multiplicidade de homens não é mais do que uma diferença quantitativa, um mais ou menos de força, de recursos, e que ninguém sabe quem são os verdadeiros agentes, sem nome, da potência global representada pelo que o autor chama, em comunhão com Husserl e Heidegger, de "técnica" ("τέχνη"), sob cuja égide está a produção, a primazia dos meios sobre os fins, a utilidade, a única saída que encontra, capaz de causar um giro em nossa compreensão do mundo e da vida, de nos revolucionar, é esta experiência que representa a doação de nossa finitude, que é, ao mesmo tempo,  reconquista de nossa humanidade autêntica: o sacrifício. Com este sacrifício, que não é por uma coisa ou alguém em particular, mas para o "nada", para um afastamento do quotidiano, o homem pode se converter em "aquele que salva". O sacrifício, que não é nada de positivo, que não possui nenhum conteúdo positivo, não se identifica com a autoimolação, ou com o espetáculo, imagem coisificada do sacrifício que é gerada pela própria compreensão técnica do mundo e da vida. Trata-se, antes, de um "não" que não se dirige ao estado de coisas singulares e concretos, mas, no fundo, ao modo de compreensão que os sustenta: é encarar a própria finitude sem se esquivar dela; portanto, não como um tema de meditação ou reflexão, mas como uma atitude negativa capaz de abrir uma nova dimensão. Este é o tema do sacrifício para Jan Patocka (1907-1977).


Referência: PATOCKA, Jan. Les périls de l’orientation de la science vers la technique selon Husserl et l’essence de la technique en tant péril selon Heidegger. In : Liberté et sacrifice: écrits politiques (pp. 259-276). <traduit du tchèque et du allemand par Erika Abrams>. Grenoble: Jerôme Billon, 1990.

Husserl e Heidegger a respeito da técnica, segundo Jan Patocka


« [...] ni Husserl ni Heidegger ne se laisse égarer par les conséquences de la technique sur le plan de la civilisation matérielle qui tendent d’ordinaire à accaparer l’attention et à rendre le débat d’une ambivalence qui s’oppose à toute évaluation claire de la situation globale. Tous deux visent au contraire le point central où l’essence de la technique touche à l’essence de l’homme, et ce point est, pour l’un comme pour l’autre, le rapport de l’être-homme à la vérité dont l’homme seul, parmi tous les êtres que nous connaissons, est capable. Sur ce point, Husserl et Heidegger voient, dans l’essence de la technique, non pas un désastre, mais un danger. Le danger auquel il s’agit de parer ne vient pas de la technique en tant que telle, mais de la technique dans son rapport à ce qui en l’homme est capable de vérité. Il n’est donc pas question de prendre position contre la technique, de la limitier ou de la supprimer. Il est vrai que chez Husserl, étant donné la manière dont il conçoit le thème de son ouvrage – la crise des sciences –, la technique ne se porte pas au premier plan dans toute son ampleur. Comme la crise des sciences implique cependant à ses yeux une crise de l’humanité, il est clair que la technique joue dans cette dernière crise un rôle capital, qu’elle en est à vrai dire l’instigatrice. Ce qui sépare les deux penseurs concerne plutôt la conception de la vérité et le rapport de la vérité à l’essence de l’homme ». (p. 267).


Referência: PATOCKA, Jan. Les périls de l’orientation de la science vers la technique selon Husserl et l’essence de la technique en tant péril selon Heidegger. In : Liberté et sacrifice: écrits politiques. <traduit du tchèque et du allemand par Erika Abrams>. Grenoble: Jerôme Billon, 1990.

Cultura tecnológica e o futuro da cultura

“[...] continua sendo um fato que o fator distintivo da cultura científico-tecnológica – que tem sido até agora moldada – é que ela provê meios cada vez mais poderosos, tornando as atividades humanas mais e mais eficientes, mas não provê um compasso distintivo, que indicaria como usar estes meios e em que direção ir.” (SUCH, 2003, p. 411). 


O autor nos indica que os componentes contemplativos de nossa cultura, apesar de "soterrados" pela cultura tecnológica, nos levariam a uma compreensão axiológica da atividade humana, a nos concentrarmos no cuidado de si e nos objetivos de nossa cultura; entretanto, a cultura científico-tecnológica – originariamente europeia, mas em plena expansão geográfica – é responsável pelo ofuscamento destes elementos, porque os seus componentes transformacionais e cognitivos possuem um primado sobre quaisquer outros. Para ele, o perigo desta situação é que a falta de norte e o acúmulo de meios de destruição disponíveis pode levar esta cultura ao aniquilamento de si própria e mesmo de toda a vida na Terra. Assim, para a sobrevivência da cultura, duas condições deveriam ser satisfeitas: 1) o desenvolvimento de um sistema comum e universal de valores e 2) o desenvolvimento de um nível de tolerância que permita a coexistência de diferentes sociedades humanas, apesar de suas diferenças com respeito a seus objetivos.



Referência: SUCH, Jan. Science and Technology and the Current Trends in the Development of Culture, Poznan Studies in the Philosophy of the Sciences and the Humanities, Multiformity of Science, Rodopi, pp. 409-411(3), 2003.