“Estabelecido, desenvolvido e praticado no decurso de séculos, o método da geometria se transformou em uma técnica que pode ser adquirida e tornada habitual, que alguém pode aprender a dominar e a usar. Este processo é, ao mesmo tempo, um de consolidação e ofuscação, ofuscação, precisamente, da “origem” histórico-intencional da geometria, de seu enraizamento na experiência pré-geométrica do Lebenswelt. O último permanece o que ele é e nós continuamos a viver e a buscar todas as nossas atividades em seu interior com ou sem a posse do método geométrico ou, para este efeito, de qualquer método científico. Esta não é senão a última fase do processo de originação da geometria, o resultado acabado ao qual este processo conduz, o qual é conservado, enquanto o próprio processo é perdido de vista. Quando a geometria é, por conseguinte, tomada como constituída e estabelecida, em separado do próprio processo de sua origem, ela sofre certa transformação de sentido. Ela não é entendida como uma conquista mental de ordem superior, envolvendo o processo de idealização e, então, fundada sobre e pressupondo a experiência pré-geométrica do Lebenswelt sobre o qual a idealização é desempenhada. Tendo se tornado uma tradição, uma aquisição estabelecida e consolidada à disposição de quem quiser aprender a dominar os seus métodos, a geometria parece repousar sobre os seus próprios fundamentos.” (GURWITSCH, 2009/1956, p. 459).
Referência: GURWITSCH, Aron. The Last Work of Edmund Husserl (pp. 447-502). In: KERSTEN, Fred (Ed.). The Collected Works of Aron
Gurwitsch (1901-1973), Volume II: Studies in Phenomenology and Psychology. Heidelberg/Dordrecht/London/New York: Springer, 2009. <Originalmente publicado em duas partes em Philosophy and Phenomenological Research, XVI (1956) e XVII (1957).>