sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O sacrifício, para Jan Patocka


"O que quer que ele seja, o sacrífico radical nos parece ser a experiência, própria a nosso presente e ao passado recente, que poderá vir a ser o ponto de partida de uma reviravolta em nossa compreensão do mundo e da vida, capaz, sem depreciação romântica, de trazê-la, enfim, de volta a si mesma e, deste modo, de sobrepujar a era da compreensão técnica, tão rica em aparência, mas atingida pela pobreza em sua essência." (PATOCKA, 1990, p. 275).

Na época em que os homens são contados como números, em que a multiplicidade de homens não é mais do que uma diferença quantitativa, um mais ou menos de força, de recursos, e que ninguém sabe quem são os verdadeiros agentes, sem nome, da potência global representada pelo que o autor chama, em comunhão com Husserl e Heidegger, de "técnica" ("τέχνη"), sob cuja égide está a produção, a primazia dos meios sobre os fins, a utilidade, a única saída que encontra, capaz de causar um giro em nossa compreensão do mundo e da vida, de nos revolucionar, é esta experiência que representa a doação de nossa finitude, que é, ao mesmo tempo,  reconquista de nossa humanidade autêntica: o sacrifício. Com este sacrifício, que não é por uma coisa ou alguém em particular, mas para o "nada", para um afastamento do quotidiano, o homem pode se converter em "aquele que salva". O sacrifício, que não é nada de positivo, que não possui nenhum conteúdo positivo, não se identifica com a autoimolação, ou com o espetáculo, imagem coisificada do sacrifício que é gerada pela própria compreensão técnica do mundo e da vida. Trata-se, antes, de um "não" que não se dirige ao estado de coisas singulares e concretos, mas, no fundo, ao modo de compreensão que os sustenta: é encarar a própria finitude sem se esquivar dela; portanto, não como um tema de meditação ou reflexão, mas como uma atitude negativa capaz de abrir uma nova dimensão. Este é o tema do sacrifício para Jan Patocka (1907-1977).


Referência: PATOCKA, Jan. Les périls de l’orientation de la science vers la technique selon Husserl et l’essence de la technique en tant péril selon Heidegger. In : Liberté et sacrifice: écrits politiques (pp. 259-276). <traduit du tchèque et du allemand par Erika Abrams>. Grenoble: Jerôme Billon, 1990.

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