Se nós dirigirmos a nossa atenção a um tom particular, ou a um objeto visual particular, em exclusão de outras impressões de luz e som, nós temos na orelha ou no olho sensações musculares definidamente graduadas, as quais podem ser provavelmente referidas ao tensor tympani e aos músculos, facilitando a acomodação e o movimento do olho. As mesmas sensações podem ser percebidas, ainda que menos claramente, acompanhando a ideação memorial [poderíamos dizer: introspecção de recordação], ao menos quando as ideias são vívidas. Um objeto visto com a mente do olho é referido [como estando] a certa distância de nós, e acomodamos, por consequência, o aparato muscular do olho a ele. Os tons de uma melodia que nós recordamos na memória podem fazer surgir uma tensão na orelha tão claramente perceptível como se eles fossem reais. (p. 247).
WUNDT, Wilhelm. Lectures on human and animal psychology. Traduzido da segunda versão alemã por J. E. Creighton e E. B. Titchener. London: Swan Sonnenschein & Co. / New York: Macmillan & Co., 1896.
Nesse trecho do texto de Wundt, podemos ver a posição clássica da teoria da percepção, que carrega o representacionalismo. Apontaremos, aqui, os seus problemas, brevemente. O índice de realidade de um objeto percebido é dado a partir de um objeto supostamente real, e, além disso, o objeto percebido é percebido outra vez por algo como um órgão da percepção interno ("olho da mente", em um caso, e, no outro, aquela "tensão na orelha" ocasionada pela memória). Primeiro, como posso estabelecer o índice de realidade de um objeto2 a partir de um objeto1 se o que me é dado à consciência é nada mais do que o objeto2? O objeto1, assim, permanece hipotético. Segundo, como posso dizer que aquilo que percebo me é dado por um sentido perceptivo externo ao passo que a minha percepção é realizada por sentidos perceptivos internos? Devo perceber os sentidos externos através dos sentidos internos? Assim, qual seria a diferença dos sentidos externos e dos objetos? E, se houvesse um objeto para além desse canal entre os sentidos externos e os internos, digamos, um objeto externo (transcendente, estrangeiro), como poderia eu dizer que esse objeto existe, se o que percebo é um objeto já percebido (no interior da percepção)?
Nenhum comentário:
Postar um comentário