domingo, 22 de julho de 2012

Jacobi e a "criatura completamente nova" do domínio especulativo: carta a Fichte


Em uma carta a Fichte, Jacobi diz:
Resulta inegável que o espírito da filosofia especulativa, pelo que teve de ser continuamente impulsionada desde os seus primórdios, consiste em tornar desigual a certeza destas duas proposições, que, sem embargo, possuem igual certeza ao homem natural: “Eu sou e existem as coisas externas a mim”. Esta filosofia teria que tentar submeter uma destas proposições à outra, derivar completamente aquela desta ou esta daquela, para que sob seus olhos, o que tudo vê, apareça somente um ser e uma só verdade! Se for bem sucedida a especulação em produzir esta unidade, aumentando essa desigualdade ao ponto de que, por trás da destruição daquela igualdade natural, fizesse surgir uma igualdade artificial do mesmo Eu e NãoEu manifestamente existente no saber – uma criatura completamente nova {p. 486} que pertence exclusivamente a esta especulação! –, se for bem sucedida, digo então que poderia chegar a produzir também, perfeitamente, a partir de si mesma uma ciência completa do verdadeiro[1].

Jacobi está, aí, caracterizando o idealismo transcendental: um só ser e uma só verdade. Aliás, para ele, todo monismo reconduz a este mesmo princípio, de tal modo que o materialismo não seria mais do que um idealismo invertido. A oposição entre este eu natural e algo como um novo eu, artificial, o puro (transcendental), diz respeito, pois, ao projeto fenomenológico também.


[1] JACOBI, F. H. Carta a Fichte: Eutin, 3 marzo 1799. In: Cartas a Mendelssohn y otros textos. <Prólogo, traducción y notas de José Luis Villacañas>. Barcelona: Círculo de Lectores, 1996, pp. 485-6.

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