terça-feira, 10 de julho de 2012

Eu transcendental


Seção 11 da Primeira Meditação ("Rumo ao "ego" transcendental") das Meditações Cartesianas de Husserl: "O "eu" psicológico e o "eu" transcendental. A transcendência do mundo."

"Esse eu e sua vida psíquica, que mantenho necessariamente apesar da εποχη, não são uma parte do mundo [...]" (p. 42).


Neste parágrafo, inicial da seção 11, Husserl visa distinguir o eu transcendental do eu empírico, este último percebido pela intuição natural que o homem tem dele mesmo, considerado como homem natural (cf. a mesma página). O eu empírico é aquele considerado pelas ciências positivas, enquanto que o eu transcendental visa fundamentar as próprias ciências, ser um eu puro ou fenomenológico. Este trecho é complementado por um que segue os dois que coloquei abaixo, mas que, por ser mais ligado a este, colocarei em seguida a ele, e não aos outros, como está no texto, ou seja, a sequência original do texto é "2", "3" e "1" (os números não existem no texto original).


"[...] se o eu reduzido [resultado da redução fenomenológica] não é uma parte do mundo, da mesma forma,inversamente, o mundo e seus objetos não são partes reais do meu eu. Não é possível encontrá-los em minha vida psíquica como partes reais dessa vida, como um complexo de dados sensoriais ou de atos psíquicos [visto que o eu transcendental é puro]. Essa transcendência [que é correlato de transcendental, mas não o mesmo] é inerente no sentido específico de tudo o que faz parte do mundo, ainda que não possamos dar a esse "mundo" e a suas determinações nenhum outro sentido senão aquele que extraímos de nossas experiências, representações, pensamentos, julgamentos, de valor e ações, da mesma forma que não podemos justificar a atribuição a esse mundo de uma existência evidente, a não ser partindo de nossas próprias evidências e atos. Se essa "transcendência" de inerência irreal pertence ao sentido próprio do mundo, então o eu em si, que carrega nele o mundo como unidade de sentido e que justamente por isso é uma premissa necessária dele, esse eu chama-se transcendental no sentido fenomenológico do termo, e os problemas filosóficos decorrentes desta correlação chamam-se problemas filosóficos transcendentais." (p. 43).

"A vida psíquica, de que fala a psicologia, sempre foi concebida como vida psíquica no mundo. Isso vale manifestamente também para minha própria vida, já que podemos captá-la e analisá-la na experiência puramente interna. [...] a εποχη [epoche, redução fenomenológica: o colocar o mundo "entre parênteses"] [...] inibe o valor existencial do mundo objetivo e, dessa forma, o exclui totalmente do campo dos nossos julgamentos. O mesmo se dá com o valor existencial de todos os fatos objetivamente constatados pela experiência externa, assim como daqueles da experiência interna. Para mim, sujeito que medita, colocado e persistindo na εποχη, e posicionando-me assim como fonte exclusiva de todas as afirmações e de todas as justificações objetivas, ele não é, portanto, nem eu psicológico nem fenomênos psíquicos no sentido da psicologia, ou seja, comprendidos como elementos reais de seres humanos (psicofísicos)." (p. 43).


E:

"Pela εποχη fenomenológica, reduzo meu eu humano natural e minha vida psíquica – domínio de minha experiência psicológica interna – a meu eu transcendental e fenomenológico, domínio da experiência interna transcendental e fenomenológica. O mundo objetivo, que existe para mim, que existiu ou existirá para mim, esse mundo objetivo com todos os seus objetos encontra em mim mesmo, como disse acima, todo o sentido e todo o valor existencial que tem para mim; ele os encontra no meu eu transcendental, que só revela a εποχη fenomenológica transcendental." (p. 43).

Referência: Husserl, Edmund. Meditações Cartesianas: Introdução à fenomenologia. Tradução Frank de Oliveira. São Paulo, SP: Madras, 2001.

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