sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Indivíduo e Sujeito

"[...] para o indivíduo, já não se trata de submeter-se a normas ou valores que lhe sejam externos; o que ele reivindica é, sobretudo, o direito de afirmar sua diferença, independente de qual seja sua origem e sua natureza; ora, nessa perspectiva, em que conta sobretudo o fato de ser o que se é (a "autenticidade"), os valores da cultura, em torno dos quais a humanidade se reconhecia como um todo, não tenderiam a desaparecer ou, pelo menos, a se dissolver em benefício da crescente valorização dos particularismos enquanto tais?" (p. 36).
"[...] a idéia (intrinsecamente moderna) da liberdade como autonomia designa, num sentido, dependência em relação a regras, mas dependência percebida como compatível com a liberdade ou, melhor, uma dependência fundadora da liberdade autêntica, na medida em que essa liberdade autêntica (humana) não é precisamente a liberdade (natural) sem regras, mas consiste em fazer com que o próprio humano seja o fundamento ou a fonte de suas normas e leis." (p. 62).
"[...] na era democrática, em que as regras e as normas não poderiam mais proceder de uma alteridade absoluta, como conceber um direito ou uma ética, a não ser sob o regime da autonomia? Como conceber, nas cidades, uma comunicação em torno de normas compartilhadas, a não ser na medida em que individualidade possa elevar-se à subjetividade? A idéia de sujeito, precisamente na medida em que ela não se reduz à de indivíduo, mas, ao contrário, implica uma transcendência, uma ultrapassagem da individualidade, encerra em si a intersubjetividade e, assim, a comunicação em torno de uma esfera comum de princípios e de valores. E é, sem dúvida, mediante essa articulação intrínseca entre subjetividade e intersubjetividade que se trata de repensar o sujeito de hoje." (p. 90).
"Na medida em que a idéia de sujeito corresponde não ao valor (individualista) da independência, mas ao da autonomia (humanista), nela está incluída, por definição, a relação com o outro: quando, para expressar a exigência que define a autonomia, eu digo que me submeto à lei que eu próprio me outorguei, a irredutibilidade do segundo "eu" ao primeiro (irredutibilidade que é precisamente a do sujeito ao indivíduo) implica de fato que o sujeito leve em conta essa relação com a humanidade que o constitui enquanto tal (como sujeito)." (p. 100).
Referência: Renaut, Alain. O indivíduo: reflexão acerca da filosofia do sujeito. Trad. Elena Gaidano. Rio de Janeiro: DIFEL, 1998.

Comentários finais
Alain Renaut expõe, primeiramente, que as noções de indivíduo e de sujeito são, nas interpretações contemporâneas, principalmente as heideggerianas (anti-humanistas) e algumas neotocquevilleanas, confundidos, tomados como equivalentes, o que, segundo o autor, é falso. Em alguns casos, autores como Foucault e Derrida, segundo o autor, buscam eliminar, da filosofia, a concepção de autonomia, já que buscam eliminar as concepções de consciência e de liberdade soberana, porque entenderam a filosofia do sujeito como homogênea (confundiram sujeito e indivíduo). Para demonstrar isto, remonta a história destes conceitos: de um lado, a monadologia leibniziana que fundamenta uma espécie de individualismo marcado pelo fechamento da mônada para o seu interior, sem janelas para fora, com uma única dependência vertical (Deus) e nenhuma horizontal e, por isto, uma independência da mônada em relação às demais. As mônadas auto-realizam a sua própria natureza (prévia), o que não é autonomia. Cada mônada é independente da outra; não há intercomunicação entre essas substâncias; eis o individualismo leibniziano. Por outro lado, a "lógica moral do sacríficio", principalmente com Kant, fundamenta a noção de sujeito e de autonomia, uma transcendência do indivíduo para a comunidade, mas que implica dependência em relação ao dever. Como se pode ver, o autor defende a autonomia em detrimento da independência e, assim, busca fundamentar uma ética que considere a alteridade, a humanidade, e não trate apenas do indivíduo como fechado em si mesmo, mas do sujeito transcendental (Kant), ético. Na era democrática, contudo, o indivíduo se apresenta como princípio e valor; trata-se, portanto, de transcender esta sua condição em direção à comunidade, ao sujeito.

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