domingo, 3 de outubro de 2010

Psicologismo transcendental

Husserl caracteriza o psicologismo transcendental como um problema que impede o trabalho da "filosofia verdadeira". Trata-se, em suma, de uma confusão entre a psicologia pura e a fenomenologia transcendental devido ao fato de ambas possuírem (campos de) objetos em comum, embora o ponto de partida seja diverso. Transcrevo o parágrafo, nas Meditações, onde Husserl comenta este ponto:

"Mas, dirão alguns, seguir essa direção de pesquisas [a de considerar as cogitationes múltiplas, a corrência de consciência que forma a vida do eu do sujeito que medita] é simplesmente fazer descrição psicológica, baseada na experiência puramente [pp. 49-50] interna de minha própria vida consciente [aqui, inclua-se o método introspectivo, tão comum na psicologia empírica do fim do século XIX e início do XX]; não se pode esquecer que para ser pura essa descrição deve excluir qualquer colocação de uma realidade psicofísica. Mas uma psicologia puramente descritiva, ainda que devamos à nova ciência fenomenológica o fato de ter revelado seu sentido metódico verdadeiro, não é fenomenologia transcendental, no sentido em que definimos esta como redução fenomenológica transcendental. No entanto, é preciso distingui-las bem; sua confusão caracteriza o psicologismo transcendental, que torna impossível qualquer filosofia verdadeira. Trata-se aqui de uma dessas nuanças aparentemente negligenciáveis, que decidem sobre a orientação da filosofia. O conjunto da pesquisa fenomenológica transcendental está ligado, não devemos esquecer, à observância inviolável da redução transcendental, redução que não se deve confundir com a limitação abstrata da investigação antropológica à mera vida psíquica. Em conseqüência, a investigação fenomenológica transcendental da consciência e a investigação psicológica diferem profundamente, ainda que os elementos a serem descritos tanto em uma como em outra possam coincidir. De um lado, temos dados que pertencem ao "mundo", ao mundo colocado como existente, concebidos como elementos psíquicos do homem. De outro, mesmo com dados paralelos e conteúdo idêntico, não há nada desse tipo; o mundo, na atitude fenomenológica , não é uma existência, mas um simples fenômeno [grifos em negrito meus; itálicos do autor]." (p. 49-50).
Talvez este ponto de diferença entre redução transcendental e "limitação abstrata da investigação antropológica à mera vida psíquica", como aparece acima, deva ser melhor investigado e abordado, de modo a esclarecer esta diferença entre psicologia e fenomenologia. E isto talvez também possa apontar para as possibilidades de uma psicologia fenomenológica ("até que ponto esta é possível?").

Referência: Husserl, Edmund. Meditações Cartesianas: Introdução à fenomenologia. Tradução Frank de Oliveira. São Paulo, SP: Madras, 2001. A obra original é resultado de duas palestras de duas horas cada pronunciadas na Sorbonne, França, nos dias 23 e 25 de fevereiro de 1929. O texto foi elaborado e editado por Eugen Fink. A tradução original para o francês (a obra em alemão foi publicada somente em 1951, após a morte de Husserl) foi feita por Gabrielle Peiffer e Emmanuel Levinas.

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