Após apontar o risco do psicologismo transcendental, Husserl encontra, na investigação das cogitationes do ego transcendental, algo que lhe deve ser acrescentado:
"Há uma coisa que a εποχη concernente à existência do mundo não poderia mudar: é que as múltiplas cogitationes que se relacionam ao "mundo" contêm, nelas mesmas, essa relação; assim, por exemplo, a percepção dessa mesa é, tanto antes como depois, percepção dessa mesa. Dessa forma, todo estado de consciência em geral é, em si mesmo, consciência de alguma coisa, qualquer que seja a existência real desse objeto e seja qual for a abstenção que eu faça, na atitude transcendental que é minha, da posição dessa existência e de todos os atos da atitude natural. Em conseqüência, será necessário ampliar o conteúdo do [pp. 50-51] ego cogito transcendental, acrescentar-lhe um novo elemento e dizer que todo cogito, ou ainda todo estado de consciência, "assume" algo, e que ele carrega em si mesmo, como "assumido" (como objeto de uma intenção) seu cogitatum respectivo." (pp. 50-51).
"Esses estados de consciência são também chamados de estados intencionais. A palavra intencionalidade não significa nada mais que essa particularidade fundamental e geral que a consciência tem de ser consciência de alguma coisa, de conter, em sua qualidade de cogito, seu cogitatum em si mesma." (p. 51).
É daqui uma das famosas premissas da fenomenologia: "toda consciência é consciência de alguma coisa", quer dizer, toda consciência tem o seu correlato intencional, o que não permite que ela mesma seja isolada, mas impõe a necessidade de que ela esteja em relação com alguma coisa em particular (p.ex., com este computador aqui, no qual escrevo agora).
Referência: Husserl, Edmund. Meditações Cartesianas: Introdução à fenomenologia. Tradução Frank de Oliveira. São Paulo, SP: Madras, 2001.
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