quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A questão da linguagem antes e após a redução fenomenológica, em Husserl: psicologia e mundo da vida


Husserl nem sempre foi compreendido como filósofo da linguagem ou concebido com um filósofo importante para o "giro linguístico" (na literatura anglófona, linguistic turn). Inclusive, muito de sua teoria semiótica foi duramente criticada pelos trabalhos posteriores de filósofos analíticos, estruturalistas e pós-estruturalistas. Mas, longe de ser seu pensamento ser alheio aos problemas relativos aos signos, este tema marca um dos pontos, talvez, mais ricos e, ao mesmo tempo, mais enigmáticos de sua filosofia. A sua teoria da percepção ficaria, certamente, incompleta sem uma correlativa teoria dos signos. Apesar disso, o próprio Husserl fez poucas explicitações, em momentos posteriores de sua filosofia, a respeito do tema, tendo permanecido, na maior parte dos tempo, como um tema marginal ou secundário - daí a quase ausência de sua ligação com a filosofia da linguagem contemporânea. Uma das explicitações que mais me chamou a atenção - claro, até agora - consiste em um trecho presente no parágrafo 59 de Krisis. Neste trecho, em que Husserl busca distinguir o "antes" e o "depois" da psicologia com relação à mudança de atitude transcendental, que exige a operação da redução fenomenológica, a linguagem aparece conectada a um dos temas mais caros à filosofia  ulterior de Husserl: o "mundo da vida" (Lebenswelt). Além de analisar os influxos da linguagem em uma comunidade linguística, o mundo compartilhado, o próprio horizonte do mundo empírico será concebido como equivalente do "mundo linguisticamente explicitável", do dizível, ao passo que o não explicitado da experiência cotidiana será apresentado a partir da redução fenomenológica, que é equivalente à passagem da atitude natural à atitude transcendental. Somente assim a subjetividade constituinte pode ser explicitada. E, por meio de sua explicitação e com o retorno ao mundo empírico na "redução ao mundo da vida" - este retorno metódico da fenomenologia constitutiva -, a própria experiência cotidiana pode ser enriquecida. Mas, o texto de Husserl não se esgota nisso:
Como qualquer ciência objetiva, a psicologia está vinculada ao domínio do pré-cientificamente já dado, ou seja, àquilo que é descritível, nomeável, asserível na língua geral; no nosso caso, está vinculada ao psíquico exprimível na língua da nossa comunidade linguística (apreendido do modo mais vasto: a comunidade linguística europeia). Porque o mundo da vida - o "mundo para todos nós" - é idêntico ao mundo sobre o qual se pode em geral falar. Toda nova apercepção, através de uma transposição perceptiva, conduz essencialmente a uma nova tipificação do mundo da vida, e no intercâmbio [comunitário], a uma denominação que rapidamente aflui à linguagem corrente. O mundo, em consequência, é sempre já o mundo empírico, e em geral (intersubjetivamente) explicitável e, simultaneamente, o mundo linguisticamente explicitável. (HUSSERL, 2012,, p. 170, <213>).
Na sequência:
Com a ruptura da ingenuidade pela mudança transcendental-fenomenológica de atitude, intervém, todavia, uma mudança significativa também para a própria psicologia. Como fenomenólogo posso, é certo, a cada momento, retornar à atitude natural, à simples efetivação dos meus interesses vitais teóricos ou outros; posso estar novamente em ação como sempre estive, como pai de família, como cidadão, como funcionário, como "bom europeu" etc., precisamente como homem na minha humanidade, no meu mundo. Como sempre - e, no entanto, não completamente como sempre, pois não posso jamais recuperar [p. 171:] a antiga ingenuidade, só posso compreendê-la. As minhas intelecções e posição de fins transcendentais tornaram-se, então, inatuais, mas continuam a ser as minhas próprias. E ainda mais: a auto-objetivação ingênua anterior como eu humano e empírico da minha vida mental entrou num novo movimento. Todas as apercepções desta nova espécie, vinculadas exclusivamente à redução fenomenológica, com uma nova linguagem (linguagem de uma nova espécie, apesar de ser inevitável empregar a linguagem corrente, muito embora numa inevitável transformação de sentido), tudo isto que antes estava totalmente vedado e indizível aflui agora para a auto-objetivação, para a minha vida mental, e é apercebido como o seu plano de fundo intencional recém-explicitado de realizações constitutivas. Sei, a partir dos meus estudos fenomenológicos, que eu, que fui ingênuo, nada mais era do que o eu transcendental no modo do encerramento ingênuo, sei que me pertence inseparavelmente uma contraparte constitutiva, a mim, o eu de novo apercebido simplesmente como homem, contraparte que unicamente assim produz a minha concreção plena; sei de toda esta dimensão em funções transcendentais que se estendem ao infinito, completamente entretecidas entre si. Assim como acontecia antes com o mental, também o que agora aflui está localizado concretamente no mundo pelo corpo somático físico, essencialmente sempre coconstruído, localizado; eu homem, com a dimensão transcendental que me é então atribuída, estou algures no espaço e no tempo. Cada nova descoberta transcendental enriquece, assim, no retorno à atitude natural, a minha vida mental e (aperceptivamente, se mais) a de cada um. (HUSSERL, 2012, p. 170-171, <213-214>).
Referência: HUSSERL, Edmund. A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental: uma introdução à filosofia fenomenológica. (Diogo Falcão Ferrer, Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. (Original publicado em 1954 [Hua VI]).

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