domingo, 26 de agosto de 2012

A fenomenologia e o estruturalismo em torno da linguagem, segundo Foucault

Como continuação da última postagem, transcrevo, aqui, mais algumas observações de Foucault com respeito à fenomenologia:
A passagem se deu da fenomenologia para o estruturalismo e essencialmente em torno do problema da linguagem; houve ali, penso, um momento bastante importante, aquele em que Merleau-Ponty se deparou com o problema da linguagem.Você sabe que os últimos esforços de Merleau-Ponty foram nessa direção; lembro-me muito bem dos cursos em que Merleau-Ponty começou a falar de Saussure que, apesar de estar morto há quase 50 anos, era de fato desconhecido, não digo dos filólogos e lingüistas franceses, mas do público erudito. Então, o problema da linguagem veio à tona, e pareceu que a fenomenologia não era capaz de dar conta, tão bem quanto uma análise estrutural, dos efeitos de sentido que podiam ser produzidos por uma estrutura de tipo lingüístico, estrutura em que o sujeito no sentido da fenomenologia não intervinha como aquele que confere sentido. E, muito naturalmente, estando a esposa fenomenológica desqualificada por sua incapacidade de falar da linguagem, o estruturalismo tornou-se a nova noiva [do marxismo]. Eis como eu contaria as coisas. Assim sendo, a psicanálise, que estava em grande parte sob a influência de Lacan, também fazia aparecer um problema que, apesar de ser muito diferente desse, não deixava de ter analogia com ele. O problema era precisamente o inconsciente, o inconsciente que não pode ser encaixado em uma análise do tipo fenomenológico. A melhor prova de que ele não podia se encaixar na fenomenologia, ao menos como os franceses a concebiam, é que Sartre ou Merleau-Ponty - não me refiro aos outros - não pararam de tentar reduzir o que era, para eles, o positivismo, o mecanicismo ou o coisismo de Freud em nome da afirmação de um sujeito constitutivo. Foi quando Lacan, aproximadamente no momento em que as questões da linguagem começaram a ser colocadas, disse: "Por mais que vocês se esforcem, o inconsciente tal como ele funciona não pode ser reduzido aos efeitos de atribuição de sentido dos quais o sujeito fenomenológico é capaz." Lacan propunha um problema absolutamente simétrico ao colocado pelos lingüistas. O sujeito fenomenológico era, pela segunda vez, pela psicanálise, desqualificado, tal como o fora pela teoria lingüística. E compreende-se bem por que Lacan pôde dizer nesse momento que o inconsciente era estruturado como linguagem [...]. (FOUCAULT, 2005/1983, p. 311).
O sujeito fundador é, para Foucault e sua geração, um grande problema, ainda mais diante desta conjuntura. Alguns trechos adiante complementam isto:
Para mim, o problema se colocou em termos análogos aos que evoquei há pouco: será que um sujeito do tipo fenomenológico, transistórico é capaz de dar conta da historicidade da razão? Eis o ponto em que a leitura de Nietzsche implicou, para mim, uma ruptura: há uma história do sujeito assim como há uma história da razão, e desta, a história da razão, não se deve exigir o desdobramento até {p. 313:} um ato fundador e primeiro do sujeito racionalista. (FOUCAULT, 2005/1983, pp. 312-3).
E:
[Deleuze] escreveu seu livro sobre Nietzsche nos anos 60. Estou quase certo de que Deleuze o deveu, ele que se interessava pelo empirismo, a Hume, e justamente também a essa mesma questão: será que essa teoria do sujeito de que dispomos, com a fenomenologia, é satisfatória? - questão da qual ele escapava pelo viés do empirismo de Hume -, e estou convencido de que ele encontrou Nietzsche nas mesmas condições. Diria então que tudo o que ocorreu por volta dos anos 60 adivinha dessa insatisfação com a teoria fenomenológica do sujeito, com diferentes escapadas, diferentes escapatórias, diferentes avanços, conforme usemos um termo negativo ou positivo, na direção da lingüística, da psicanálise, de Nietzsche. (FOUCAULT, 2005/1983, p. 313).
Por fim, se quisermos localizar Foucault no seio desta discussão, podemos deixar com que ele próprio o diga:
Nunca fui freudiano, nunca fui marxista e jamais fui estruturalista. (FOUCAULT, 2005/1983, p. 312). 
Referências: FOUCAULT, Michel. Estruturalismo e pós-estruturalismo. In: ______. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Organização e seleção de textos, Manuel Barros da Motta; tradução Elisa Monteiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. <.Entrevista com G. Raulet, originalmente publicada em Telos, vol. XVI, n. 55, primavera de 1983, pp. 195-211.>

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