domingo, 26 de agosto de 2012

Foucault contra a abordagem fenomenológica

No prefácio à edição inglesa de As palavras e as coisas, Michel Foucault busca deixar mais claro qual era a direção de sua pesquisa e em que território esta se localizava, inclusive explicitando os seus contrapontos, seja para afirmar a sua importância ou mesmo para negá-la. Assim, diz que
[...] não queria que o esforço que realizei em uma direção [até As palavras e as coisas e principalmente neste texto, nota: HP] fosse tomado como uma rejeição de todas as outras abordagens possíveis. O discurso em geral, e o discurso científico em particular, constitui uma realidade tão complexa que é, não somente possível, mas necessário abordá-lo em diferentes níveis e de acordo com métodos diferentes. Se há, no entanto, uma abordagem que rejeito categoricamente é aquela (vamos chamá-la, de maneira geral, de fenomenológica) que dá uma prioridade absoluta ao sujeito da observação, como origem de toda historicidade - essa, em suma, que desemboca em uma consciência transcendental. Parece-me que a análise histórica do discurso científico deveria resultar, em última instância, antes em uma teoria das práticas discursivas do que em uma teoria do sujeito do conhecimento. (FOUCAULT, 2005/1970, p. 188).
E isto talvez fique mais claro com o detalhamento daquilo pelo que se interessava em suas investigações:
Não procuro negar a validade das biografias intelectuais, ou a possibilidade de uma história das teorias, dos conceitos ou dos temas. Perguntei-me simplesmente se tais descrições são em si mesmas suficientes, se elas fazem justiça à extraordinária densidade do discurso científico, se não existem, fora de suas fronteiras habituais, sistemas de regularidade, que desempenham um papel decisivo na história das ciências. Gostaria de saber se os sujeitos responsáveis pelo discurso científico são determinados em sua posição, em sua função, em sua capacidade de percepção em em suas possibilidades práticas por condições que os dominam, e mesmo os esmagam. Em suma, tentei explorar o discurso científico não do ponto de vista dos indivíduos que falam, nem do ponto de vista das estruturas formais que regem o que eles dizem, mas do ponto de vista das regras que entram em jogo na própria existência de um tal discurso [...] (FOUCAULT, 2005/1970, p. 187).
É importante se dar ouvidos a esta crítica que Foucault faz à "razão fenomenológica", à consciência transcendental como "origem de toda historicidade", porque ela não é uma fala isolada que se emudece em meio ao barulho ensurdecedor da multidão de enunciados filosóficos. Pelo contrário, outras críticas à razão fenomenológica se baseiam em princípios semelhantes. Depois que o niilismo foi deflagrado na literatura e na filosofia, especialmente por Nietzsche, e, posteriormente, revelado como uma questão íntima do homem por Martin Heidegger, tornou-se uma requisição geral da filosofia encontrar alguma outra forma para lidar com os problemas humanos que não fossem a razão especulativa e os valores supremos (o belo, o justo e o verdadeiro). No século XX, os filósofos acharam oportuno derrogar a validade da razão especulativa, da consciência transcendental, - e a fenomenologia era a sua funcionária -, visto que não se podia mais garantir qualquer certeza e verdade com ela. A questão do fundamento se tornou, então, incontornável, de modo que os pensadores foram levados a se debruçar sobre algo como a razão prática (phronésis): Heidegger, em suas análises da obra de Aristóteles, já havia apontado a anterioridade e a primazia da razão prática sobre a razão especulativa (sophía) (ver Günter Figal, Martin Heidegger zur Einführung, Hamburg 2003). É assim que, p.ex., Foucault pode estudar as regras que entram em jogo no discurso científico e teóricos como Karl-Otto Apel e Jürgen Habermas, entre outros, puderam se voltar à "razão comunicativa" e outros, ainda, como Richard Rorty, resgatar o pragmatismo. E, bem, fica uma pergunta: Se Foucault se articula com Deleuze em suas maneira de pensar e se Deleuze parece ter levado a filosofia para além dos limites da razão ocidental, na busca por eliminar dela toda ilusão de unidade, como o eu, o mundo e Deus, qual é o papel deste último na história do pensamento ocidental e na atividade filosófica que se baseia na razão especulativa? Ou, ainda, mesmo com o niilismo apontado no horizonte, Deleuze não permaneceu nos domínios da razão especulativa? Por que e de que modo?

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Como adendo, é preciso mencionar os trabalhos do pesquisador brasileiro Marcos Nalli sobre a relação entre Foucault e a fenomenologia. Em sua tese de doutorado, "Foucault e a fenomenologia: uma leitura da proto-arqueologia e de Histoire de la folie (1954-1961)", publicada em 2003 pela Universidade Estadual de Campinas, o autor investiga as relações entre os trabalhos de Foucault e Husserl, ou, melhor dizendo, a leitura que o primeiro faz do segundo. Esta tese culmina na publicação de um livro: Foucault e a fenomenologia (Ed. Loyola, 2006). Alguns dos aspectos dessa investigação são desenvolvidos também em outros artigos de sua autoria, como:
1) Um rastro a desaparecer na praia do pensamento: Foucault e a Fenomenologia (2009);
2) O conhecimento científico como problema: algumas notas sobre o debate Husserl-Foucault (2010);
3) Possibilidades e limites da cura nos textos protoarqueológicos de Michel Foucault (2011).

Referências: FOUCAULT, Michel. Prefácio à Edição Inglesa. In: ______. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Organização e seleção de textos, Manuel Barros da Motta; tradução Elisa Monteiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. <Texto originalmente publicado com o título "Foreword to the English Edition" (trad. francesa de F. Durand-Bogaert), in Foucault (M.),  The order of the things, 1970, pp. IX-XIV.>

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