domingo, 26 de agosto de 2012

O diagnóstico do presente e a liberdade

Comumente, ouvimos dizer sobre o diagnóstico do presente e a sua referência a Foucault. Sempre que ouço isso em aulas e palestras, resta um silêncio sobre as possibilidades de vida que poderiam ser extraídas desse diagnóstico, isto é, sobre o prognóstico de nossa cultura. Entretanto, o próprio Michel Foucault nos esclarece sobre este ponto:
O que eu gostaria também de dizer, a propósito dessa função do diagnóstico sobre o que é a atualidade, é que ela não consiste simplesmente em caracterizar o que somos, mas, seguindo as linhas de vulnerabilidade da atualidade, em conseguir apreender por onde e como isso que existe hoje poderia não ser mais o que é. E é nesse sentido que a descrição deve sempre ser feita de acordo com essa espécie de fratura virtual, que abre um espaço de liberdade, entendido como espaço de liberdade concreta, ou seja, de transformação possível. (FOUCAULT, 2005/1983, p. 325).
E acrescenta algo sobre o papel do intelectual:
[...] E diria que o trabalho do intelectual é certamente, em um sentido, dizer o que existe, fazendo-o aparecer como podendo não ser, ou podendo não ser como ele é. Eis por que essa designação e essa descrição do real jamais têm valor de uma descrição, do tipo: "Já que isso existe, isto existirá"; eis também por que, me parece, o recurso à história - um dos grandes fatos no pensamento filosófico da França há pelo menos duas décadas - toma seu sentido na medida em que a história tem por função mostrar que o que é jamais foi, ou seja, é sempre na confluência dos encontros, dos acasos, no curso da história frágil, precária, que são formadas as coisas que nos dão a impressão de serem as mais evidentes. O que a razão experimenta como sua necessidade, ou melhor, aquilo que as diferentes formas de racionalidade apresentam como lhes sendo necessário, podemos fazer perfeitamente a sua história e encontrar redes de contingências de onde isso emergiu; o que, no entanto, não quer dizer que essas formas de racionalidade sejam {p. 326:} irracionais; isso quer dizer que elas repousam em uma base de prática e de história humanas, e já que essas coisas foram feitas, elas podem, com a condição de que se saiba como foram feitas, ser desfeitas. (FOUCAULT, 2005/1983, pp. 325-6).
Referências: FOUCAULT, Michel. Estruturalismo e pós-estruturalismo. In: ______. Arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. Organização e seleção de textos, Manuel Barros da Motta; tradução Elisa Monteiro. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005. <.Entrevista com G. Raulet, originalmente publicada em Telos, vol. XVI, n. 55, primavera de 1983, pp. 195-211.>

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