Esta questão vale ser bem marcada, pois, como vejo, é o primeiro princípio da fenomenologia.
"Proporciona-nos um ponto de partida a meditação cartesiana sobre a dúvida: a existência da cogitatio, da vivência, é indubitável enquanto se experimenta e sobre ela simplesmente se reflecte; o apreender e o ter intuitivos e directos da cogitatio são já um conhecer; as cogitationes são os primeiros dados absolutos." (Husserl, 2008, p. 23).
Mas por que a dúvida não atinge as cogitationes? Onde reside a questionabilidade e a inquestionabilidade do conhecimento?
"Responde-se, de começo [...] com o par de conceitos ou de palavras imanência e transcendência. O conhecimento intuitivo da cogitatio é imanente, o conhecimento das ciências objetivas - ciências da natureza e ciências do espírito - mas também, vendo de perto, o das ciências matemáticas, é transcendente. [23-4] Mas ciências objectivas, existe a dúvida sobre a transcendência, a questão: como pode o conhecimento ir além de si mesmo, como pode ele atingir um ser que não se encontra no âmbito da consciência? Esta dificuldade cessa no conhecimento intuitivo da cogitatio." (Husserl, 2008, p. 23-4).
"[...] distingue-se entre imanência inclusa [reelle] e imanência no sentido do dado em si mesmo que se constitui na evidência [reale]. O imanente incluso surge como o indubitável, justamente porque nada mais exibe, nada mais "intenta para lá de si mesmo", porque aqui o que é intentado está também autodatado de modo completo e inteiramente adequado. [...] não entra no campo visual outro dado em si mesmo além da do imanente incluso." (Husserl, 2008, p. 24) [Tomei os termos entre colchetes de um trecho anterior; acho que se encaixam bem aí. E também acho que uma boa alusão histórica desses termos seria aos seguintes, de Hegel, respectivamente: para-si e em-si, ou melhor, imanência para mim e imanência em si.]
"O primeiro grau de clareza é, pois, este: o imanente ingrediente ou, o que aqui significa o mesmo, o adequadamente dado em si mesmo é inquestionável, e que me é permitido utilizar. O transcendente (o não inclusamente imanente) não me é lícito utilizá-lo, por isso, tenho de levar a cabo uma redução fenomenológico, uma exclusão de todas as posições transcendentes." (Husser, 2008, p. 24).
Com a transcrição destes trechos, parece ficar mais claro o papel central do cogito na fenomenologia e também o papel da redução: excluir as posições transcendentes.
Referência: Husserl, Edmund. A ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2008.
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