Husserl apresenta dois sentidos para transcendência e, então, opõe a cada sentido um particular da imanência. Apresentarei, primeiro, os dois sentidos de transcendência e, depois, as oposições, respectivamente, assim recortando o texto.
1) "Pode [...] querer dizer que o objecto de conhecimento não está como ingrediente contido no acto cognitivo [...] O acto de conhecimento, a cogitatio, tem momentos ingredientes, que como ingredientes constiutem mas a coisa que ela intenta e que supostamente percepciona, de que se recorda, etc., encontra-se na própria cogitatio enquanto vivência, mas não inclusamente como fragmento, como algo que realmente nela existe. A pergunta é, pois: como pode a vivência ir, por assim dizer, além de si mesma? [...]" (Husserl, 2008, p. 60).
2) "É transcendente no segundo sentido todo o conhecimento não evidente, que intenta ou põe o objectal (das Gegenständliche), mas não o intui ele mesmo. Nele vamos além do dado em cada caso no verdadeiro sentido, além do que directamente se pode ver e captar. A pergunta é aqui: como pode o conhecimento pôr como existente algo que nele não está directa e verdadeiramente dado?" (idem, p. 61).
1) "[...] por "dado no verdadeiro sentido" ou "dado imanentemente" [em oposição à transcendência no sentido 1] se entende o estar inclusamente contido. [...] Portanto, imanente [60-61] significa aqui inclusamente imanente, na vivência cognitiva." (p. 60-1).
2) "[...] há ainda uma outra transcendência, cujo contrário é uma imanência inteiramente diversa, a saber, o dar-se absoluto e claro, a autopresentação em sentido absoluto. Este estar dado, que exclui toda a dúvida sensata, um ver e captar absolutamente imediato da própria objectalidade intentada e tal como é, constitui o conceito pleno de evidência e, claro, entendida como evidência imediata [os negritos são meus]". (p. 61).
No entanto, coloca que quem levanta estas duas questões (em 1 e 2):
"[...] supõe tacitamente que o único dado realmente compreensível, inquestionável, absolutamente evidente, é o do momento contido como ingrediente no acto cognoscitivo e, por isso, surge-lhe como enigmático, problemático, tudo o que não está como ingrediente contido numa objectalidade conhecida. Veremos em breve que isto é um erro fatal." (p. 61).
Referência: Husserl, Edmund. A ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2008.
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