sábado, 29 de janeiro de 2011

Fenomenologia e ciências particulares

"Para mim é obscuro como pode o conhecimento atingir o transcendente, o não autodado, [24-5], mas o "trans-intentado"; / pelo que certamente nenhum dos conhecimentos e ciências transcendentes me pode ajudar em vista da claridade. O que eu quero é claridade, quero compreender a possibilidade deste apreender, isto é, se examino o seu sentido, quero ter diante dos meus olhos a essência da possibilidade de tal apreender, quero transformá-lo intuitivamente em dado. [...] Se, pois, como indubitável se tornar em virtude deste exame, a crítica do conhecimento é uma ciência que quer continuamente, só e para todas as espécies e formas de conhecimento, criar claridade, então não pode utilizar nenhuma ciência natural; não pode religar-se aos seus resultados nem às suas asserções sobre o ser; estes permanecem para ela em questão. Todas as ciências são para ela apenas fenómenos da ciência. Toda a vinculação significa uma metábasis [no original, em caracteres gregos] errónea. Esta, por seu turno, ocorre por um erróneo deslocamento do problema, mas, claro, muitas vezes óbvio: entre a explicação científico-natural (psicológica) do conhecimento como fato natural e a elucidação do conhecimento quanto às possibilidades essenciais da sua efectuação. Portanto, para evitar este deslocamento e conservar constantemente no pensamento o sentido da pergunta por aquela possibilidade, precisa-se da redução fenomenológica." (Husserl, 2008, pp. 24-5).

 "É-me permitido dispor de todas as ciências só enquanto fenómenos, portanto, não como sistemas de verdades vigentes que possam para mim ser empregues a título de premissas ou até de hipóteses, como ponto de partida; por ex., toda a psicologia, toda a ciência da natureza. [...] A elucidação das possibilidades do conhecimento não se encontra na senda da ciência objectiva. Fazer do conhecimento um dado evidente em si mesmo e querer aí intuir a essência da efectuação não significa deduzir, induzir, calcular, etc., não significa inferir novas coisas com fundamento a partir de coisas já dadas ou que valem como dadas." (Husserl, 2006, p. 26).

Comentários: Como fica claro, nestes dois trechos, Husserl separa o campo das ciências naturais (ou particulares) e o campo da fenomenologia (transcendental). No último deles, inclusive com uma diferença de método: exclui-se a indução, a dedução, o cálculo.

Referência: Husserl, Edmund. A ideia da fenomenologia. Lisboa: Edições 70, 2008.

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